A DOR E O PRAZER - CLAUDIA COSTIN

15/12/2017

FONTE - FOLHA DE SP 

Na palestra de abertura do Wise, a maior conferência mundial de Educação, Fareed Zakaria, jornalista americano, lançou um alerta: as crianças e adolescentes podem estar se beneficiando do acesso mais fácil a informações, mas estão perdendo a oportunidade de desenvolver disciplina intelectual, algo central para um aprendizado mais profundo.

A aquisição de competências não se faz só em condições de prazer. Sim, a criança pequena busca incessantemente aprender, mas frustra-se sempre que não consegue e chega a chorar em algumas tentativas infrutíferas de andar sozinha ou alcançar algum objeto.

É importante na educação infantil promover o brincar como estratégia pedagógica básica, mas não devemos nos iludir -a aprendizagem ao longo da vida nem sempre será um jogo. Como na vida de bailarinas ou de atletas, praticar habilidades ainda não adquiridas demandará esforço e disciplina que eventualmente colidirão com outros desejos do jovem estudante, mas que no final, ao superar-se a dificuldade encontrada, poderão premiá-lo com o intenso prazer da superação.

Neste sentido, podemos falar de uma educação da vontade, não muito confortável. A criança precisa aprender a nem sempre seguir seus impulsos ou lidar com a vida como se ela fosse uma mercadoria a ser consumida.

Isso demanda paciência e persistência de pais e educadores, já que eventuais frustrações podem gerar conflitos. Mas não há construção de hábitos novos mais propícios a aquisição de competências sólidas para a vida sem o enfrentamento de costumes arraigados.

Isso não significa que o processo de ensino deva ser tedioso, centrado em longas aulas expositivas ou intermináveis listas de exercícios. Ao contrário, para preparar os alunos para o novo mundo do trabalho e para a vida em sociedade, as aulas devem ser engajadoras, associadas a resolução colaborativa e criativa de problemas.

Mas as dificuldades de aprendizagem devem também ser identificadas e, mediante trabalho cuidadoso e eventualmente tedioso, ser superadas. Além disso, parte do que se aprende na vida de estudante deve ocorrer em casa, com a preparação adequada para as aulas, a leitura de textos e livros de ficção e não ficção ou pesquisas associadas ao que se desenvolve em sala.

Nem todo fim de semana ensolarado é substituído com prazer por trabalhos preparatórios, mas a dor eventualmente causada por este transtorno (desde que em níveis razoáveis) tenderá a ser fartamente compensada pela aquisição de novos hábitos, como o da leitura literária, e pelo prazer de entender os complexos processos que marcam o mundo que nos cerca e a vida em sociedade