"A FORMA DA ÁGUA" LEVA O OSCAR, OU NÃO? - ISABELA BOSCOV

12/02/2018

“A Forma da Água”: ele leva o Oscar ou não?

Líder do páreo com 13 indicações, o filme de Guillermo del Toro é lindo e delicado, mas está sob acusação de plágio

É lindo, imaginativo, delicado – talvez delicado até demais. Com A Forma da Água, indicado a treze Oscar (incluindo melhor filme, diretor, atriz, e ator e atriz coadjuvantes), o mexicano Guillermo del Toro finalmente chega perto de um reconhecimento que há bastante tempo lhe é devido, por suas contribuições muito originais ao cinema – um universo rico de símbolos que está presente igualmente nos seus filmes de circuito mais restrito, como A Espinha do Diabo, e em criações pop como os dois Hellboy Círculo de Fogo.

 Além disso, A Forma da Água redime Del Toro do passo em falso que fora seu último lançamento, o bonito mas desanimado A Colina Escarlate. E, ainda assim… por mais que A Forma da Água transporte o espectador e mobilize as emoções dele durante a sessão de cinema, falta ao filme uma força que faça ele persistir na lembrança depois que as luzes se acendem. E esse, para mim, sempre foi um dos grandes talentos de Del Toro: formar imagens que continuam comigo bem depois de o filme acabar. Os mecanismos de relógio de Hellboy, os monstros tremendos que emergem do Oceano Pacífico em Círculo de Fogo e tudo, absolutamente tudo, do maravilhoso O Labirinto do Fauno, de 2006 – como o homem pálido com olhos nas palmas das mãos: são coisas de uma beleza terrível, que perturbam e fascinam sem que se saiba sequer dizer por quê. 

Também há imagens arrebatadoras em A Forma da Água; o que não há é essa sensação de que se mergulhou naquele mundo estranho que fervilha na cabeça de Del Toro. Por isso, desde que assisti a Três Anúncios para um Crime (que estreia aqui em 15 de fevereiro), A Forma da Água passou de meu segundo para terceiro preferido na disputa do Oscar principal – o meu primeiro ainda é, sem dúvida nenhuma, Dunkirk.

A Forma da Água


Se há algo que pode melar o favoritismo de A Forma da Água, é a acusação que começou a rodar por aí de que ele seria plágio de uma peça de 1969, chamada Let Me Hear You Whisper, do americano Paul Zindel.

Na superfície, as semelhanças são várias: ambas as tramas se passam num laboratório secreto nos anos 60, durante a Guerra Fria, e tratam de uma faxineira que tenta resgatar uma criatura vinda das águas. Mas, na ficção, Guerra Fria e laboratório secreto são quase sinônimos; e a figura da faxineira não tem nada de extraordinário se se considerar que poucas mulheres trabalhariam numa instalação militar nessa época – e menos ainda teriam livre acesso a todas as áreas, passando quase despercebidas. 

Os acusadores de plágio mencionam também o detalhe de uma fuga num carrinho de lavanderia. Ora, nada mais comum: o carrinho de lavanderia faz trio com o carrinho de limpeza e o carrinho de serviço de quarto como veículo de fuga predileto do cinema nos casos em que é preciso ocultar o fugitivo.

 Muito maior, em A Forma da Água, é a quantidade de coisas que são pessoais a Del Toro. Por exemplo, a criatura anfíbia que Sally Hawkins e Octavia Spencer tentam resgatar, que lembra tanto o Abe Sapien de Hellboy (o ator inclusive é o mesmo, Doug Jones) quanto O Monstro da Lagoa Negra (a homenagem aí é explícita; Del Toro adora o terror dos anos 50). Ou os tanques de água com cara de aparato dos anos 20 e 30, a obsessão com texturas, a ideia de que os homens podem ser muito mais deformados, por dentro, do que o são por fora as criaturas que eles julgam monstruosas. 

Enfim: não posso pensar em um diretor menos necessitado da imaginação alheia do que Del Toro. E, embora na minha opinião ele aqui não chegue perto da obra-prima que é O Labirinto do Fauno, não vou deixar de achar bem bacana se, em 4 de março, ele levar o Oscar – mesmo que, no meu coração, o Oscar seja de Christopher Nolan.