CINEMA: "A GRANDE JOGADA" PARECE INTERESSANTE - LUIS ZANIN ORICHIO

22/02/2018

'A Grande Jogada' conta a vida de ex-atleta que vira grande dama do pôquer

FONTE - ESTADÃO 

Com ritmo empolgante, filme mostra a esquiadora de nível olímpico que sofre acidente e busca o sucesso a qualquer preço


O filme começa com uma citação gozada sobre a rixa entre brasileiros e argentinos e termina com a afirmação de Churchill de que a vitória seria resultado da resistência a uma série de derrotas. Tudo para contar a história de uma grande dama do pôquer, cujo nome é o de uma personagem de Ulisses, de James Joyce. Esta é a "saga" de Molly Bloom em A Grande Jogada, de Aaron Sorkin, que estreia nesta quinta, 22.

A jovem Molly (Jessica Chastain) começa como esquiadora, atleta de nível olímpico que sofre um acidente improvável e precisa se reciclar. Seu pai é um psicólogo ultraexigente (Kevin Costner) e incute na filha o ideal do sucesso a qualquer preço. Ideologia, aliás, que é parte indissolúvel do ethos norte-americano.

Molly trabalha como garçonete até ser contratada como garota auxiliar de jogos de pôquer por um espertalhão da área. Sabida, aprende rápido os macetes da profissão e descobre que poderia ganhar muito mais se estabelecendo por conta própria do que vendendo sua força de trabalho para outro. Mais-valia é isso aí, e Molly encarna, como ninguém, o espírito de empreendedorismo do nosso tempo. Como censurá-la?

Acontece que o filme é a história de uma espiral sem fim de piração, noites maldormidas, jogatinas e excitação a mil. Para administrar sua "casa", Molly precisa de aditivos para manter-se acordada. E depois de outros para dormir. E assim vai.

Para funcionar bem, a história, inspirada em caso real (e baseada em livro da autora), precisa imprimir na tela o ambiente lisérgico que deveria ser a vida de Molly. E, em parte, ele o faz. Em especial, porque Jessica Chastain se entrega com garra ao papel. Incorpora a garota ambiciosa, que procura seus fins sem ligar para os meios. Para conseguir chegar aos seus objetivos, dá um tempo para considerações éticas, e põe o raciocínio para trabalhar a todo vapor.

Esse ritmo é empolgante, e pode levar o espectador ao esgotamento. O filme é longo: 2h20. Como uma maratona disputada em pique de cem metros rasos. A história é narrada em primeira pessoa, e a toda velocidade. O roteiro deve dar um livro de 400 páginas. Deve-se prestar muita atenção ao que diz a protagonista e ler as legendas com olhos de águia. Piscou, perdeu.

Além do mais, há os vaivéns no tempo, pois a narrativa não é linear. Acompanhamos a trepidante história de Molly Bloom à medida que ela a revive para o advogado que defende sua causa. O que, entre outras coisas, faz de A Grande Jogada uma trama de relacionamento entre advogado e cliente e um drama de tribunal, além de reservar algumas cenas para uma DR entre pai e filha.

Não é mau filme, não. Um tanto cansativo, inclusive pela estratégia da rápida narração em off e os riscos de redundância que dela decorrem. Mas, se nos concentrarmos no trabalho de Jessica Chastain, as longas 2h20 passam muito bem, e em boa companhia.

MEU COMENTÁRIO:

Dá para ir levando enquanto os cinemas da cidade não exibem "Trama Fantasma", indicado a 6 Oscar pelo desempenho de Daniel Day-Lewis, naquele que seria seu último filme, pois anunciou que se aposentará. 

Ainda estão devendo "Três anúncios para um crime", também oscarizado, ainda sem sinais de vida por aqui, nem mesmo promessas futuras.