A MARQUETAGEM NÃO DERROTARÁ O CRIME - BERNARDO MELLO FRANCO

18/02/2018

FONTE - O GLOBO, RJ

Na semana em que decretou a intervenção federal no Rio, o presidente Michel Temer jogou outra carta na mesa: a criação do Ministério da Segurança Pública. Não chega a ser uma ideia original. Há um ano, ele acrescentou as duas palavras ao nome do Ministério da Justiça. Em doze meses, a pasta teve três titulares e não produziu nada de concreto para conter a violência.

A criação do ministério era uma bandeira da bancada da bala. Na quarta-feira, Temer disse a aliados que ofereceria o cargo a Luiz Antonio Fleury Filho. Ele era governador de São Paulo quando a PM invadiu o Carandiru. O massacre deixou 111 motivos para desaconselhar sua nomeação.

O ex-secretário José Mariano Beltrame também foi sondado para a vaga. Policial de carreira, ele ainda não contou como passou oito anos no governo de Sérgio Cabral sem suspeitar dos crimes praticados pelo chefe.

A canetada do novo ministério cheira a factoide. Antes de aumentar a burocracia, o governo deveria resolver a crise na Polícia Federal, conflagrada pelas declarações do diretor Fernando Segovia em defesa do presidente.

Quando articulava o impeachment, Temer prometeu reduzir o número de ministérios a 22. No dia da posse, tinha 25. Desde então, criou mais três. O da Segurança será o 29º. Neste ritmo, ele ainda iguala os 32 que herdou da antecessora.

A tentação de resolver os problemas no improviso também transpareceu na sexta-feira. O general Braga Netto, comandante da intervenção no Rio, admitiu que estava voltando de férias e não tinha um plano de ação. Em outro momento, ao ser perguntado se a situação do estado era muito ruim, acenou que não e respondeu: "Muita mídia". Se o diagnóstico foi sincero, o chefe da tropa considera que a crise é invenção da imprensa e que sua tarefa é pura marquetagem.

No Planalto, atribui-se a ideia da intervenção ao ministro Moreira Franco. Em 1986, ele se elegeu governador com a promessa de acabar com a violência em seis meses. Quando assumiu, o estado registrava 41 homicídios para cada cem mil habitantes. No fim de seu mandato, o índice havia disparado para 62.