AMARELARAM - HELIO SCHWARTSMAN

20/01/2018

FONTE - FOLHA DE SP 

Há algo de injusto em disparar críticas a políticas públicas quando se tem acesso a informações que não estavam disponíveis para quem tomou a decisão original. É a chamada engenharia de obra feita. Mas se, em nome do "fair play", renunciássemos a esse tipo de exercício, estaríamos abrindo mão da possibilidade de aprender com os próprios erros. Isso dito, dá para afirmar que o pessoal da área de vacinação do Ministério da Saúde comeu mosca em relação à febre amarela (FA). Eles, com perdão do trocadilho, amarelaram.

Pelo menos desde os anos 1990, quando mosquitos do gênero Aedes reapareceram com força nos país, nos trazendo sucessivas epidemias de dengue, infectologistas apontavam o risco de reurbanização da FA. O Aedes é capaz de transmitir as duas moléstias, além da zika e da chikungunya, para citar apenas as que fizeram manchetes nos últimos anos.

A FA é a única dessas doenças para a qual temos uma vacina eficaz -e é também a mais letal delas. A taxa de mortalidade chega a assustadores 50% nos casos graves. Se havia o risco e tínhamos a vacina, por que não a incluímos nas imunizações de rotina, buscando, de forma lenta e ordenada, a maior cobertura possível?

A proposta foi discutida várias vezes e tinha defensores. O problema é que, como a vacina é feita a partir de vírus atenuados, ela pode desencadear efeitos colaterais graves em certas populações, como imunodeprimidos. Para reduzir os eventos adversos, optou-se por só vacinar habitantes de áreas onde a FA é endêmica.

Constatamos agora que essa foi a decisão errada e, por causa dela, será necessário proceder à vacinação antiamarílica às pressas, num contexto caótico, no qual é preciso fracionar doses e faltam seringas, equipes etc. Como a vacina existe e é eficaz, é improvável que esse surto de FA evolua para uma tragédia nacional, mas passaremos por mais perrengues do que teria sido necessário.