ASCENSÃO E QUEDA E LUISLINDA, A MINISTRA DOS $61 MIL - BERNARDO MELLO FRANCO

22/02/2018

FONTE - O GLOBO, RJ 

Parecia uma boa ideia. Ao transformar Luislinda Valois em ministra, o governo pensou que se livraria da pecha de desprezar as minorias e ignorar a pauta dos direitos humanos.

As acusações não eram injustificadas. Quando tomou posse, Michel Temer esnobou as mulheres e escalou um ministério só de homens brancos, algo inédito desde o governo Geisel. Ao mesmo tempo, eliminou a pasta das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.

Ao recriar o ministério e nomear uma negra, o presidente tentou contornar o retrocesso e melhorar sua própria imagem. Deu-se o contrário. Luislinda ampliou o desgaste do chefe e instalou uma nova usina de crises na Esplanada.

A ministra passou despercebida até novembro passado. Sua presença foi notada quando o jornal "O Estado de S. Paulo" revelou que ela queria receber um supersalário de R$ 61,4 mil por mês.

Luislinda reivindicava um privilégio. Queria acumular a aposentadoria de desembargadora e os vencimentos de ministra. Ela se julgava no direito de furar o teto constitucional, que limita a remuneração de todos os servidores federais ao subsídio dos ministros do Supremo (R$ 33,7 mil).

A justificativa conseguia ser pior que o pedido. Em requerimento, a ministra afirmou que sua situação se assemelhava "ao trabalho escravo". Ela ainda citou a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel em 1888.

A tucana não se conformou com o vexame. No dia seguinte, deu uma série de entrevistas para defender o indefensável. "Como é que eu vou comer? Como é que vou beber? Como é que vou calçar?", perguntou à Rádio Gaúcha. À CBN, Luislinda citou seus gastos com beleza. "É cabelo, é maquiagem, é perfume, é roupa, é sapato", enumerou. Ela foi fritada pelo Planalto, mas se recusou a entregar o cargo.

Em dezembro, a ministra ganhou uma chance de sair à francesa quando o PSDB anunciou o desembarque do governo. Em vez de aproveitar a deixa, ela se desfiliou da sigla e passou cola na cadeira.

Luislinda foi demitida na segunda-feira. Ontem, recebeu um prêmio de consolação. Depois de chutá-la, o governo a indicou para uma viagem oficial à Suíça. Desta vez, a ex-ministra abriu mão do convite, das passagens e das diárias. Antes tarde do que nunca...