E AGORA? É BOLSONARO QUATRO ANOS - HELENA CHAGAS

14/03/2019

E agora? É Bolsonaro quatro anos

Raras vezes se viu clima político tão desconcertante no Legislativo e bagunça tal no Executivo.

Por Helena Chagas   VEJA.COM VIA BLOG DO NOBLAT

E agora? É o que mais se ouve nos últimos dias nos corredores do Congresso, em salões frequentados por empresários e até em gabinetes da Esplanada. O governo ainda não completou três meses, mas raras vezes se viu clima político tão desconcertante no Legislativo e bagunça tal no Executivo. O amontoado de crises, equívocos e situações bizarras criadas pelo próprio governo faz fermentar a insegurança, gera boatos e leva a questionamentos absurdos: Jair Bolsonaro vai terminar o mandato?

O Ministério da Educação está paralisado por uma crise criada em torno do nada, envolvendo um influente ideólogo morador dos Estados Unidos e fazedor de ministros e sua trupe. Não parece que a demissão de sete integrantes de seu primeiro escalão vá resolver o assunto, e nem que os programas e ações da educação vão voltar a andar. Nos arredores do MEC, a brincadeira é dizer que o filósofo Olavo de Carvalho é um infiltrado petista, pois o dano que vem provocando é infinitamente maior do que qualquer movimento da oposição.

No Itamaraty, o chanceler Ernesto Araújo rifou o pragmatismo que marcava a política externa há décadas para incluir critérios subjetivos como valores, ideologias e "grandeza" nas relações internacionais. Na tradução desse discurso, a submissão aos Estados Unidos de Donald Trump, um afastamento da China com sérias repercussões na área comercial, o esvaziamento do Mercosul e do Brics e até a discussão sobre colaborar com os americanos numa hipotética intervenção militar na Venezuela. Esta última foi barrada pelo núcleo militar do governo, mais sensato do que boa parte dos civis.

Num enredo paralelo, o presidente e seus ativos filhos continuam correndo atrás de encrencas nas redes sociais, com postagens polêmicas como o vídeo pornográfico do Carnaval. As investigações em torno do ex-assessor Fabricio Queiroz continuam, mostrando inquietante relação com milicianos do Rio de Janeiro.

O fato de um dos presos pelo assassinato da vereadora Marielle Franco morar no mesmo condomínio de Bolsonaro e do outro já ter sido fotografado ao lado do presidente inflamou as redes sociais, mas vem sendo tratado com relativo cuidado pela imprensa. É grave demais imputar ao presidente da República qualquer envolvimento com o crime ou com os milicianos, e não há mesmo nenhum vestígio disso. Mas o episódio é constrangedor por expor a sua, digamos, base social.

O conjunto da obra desses setenta e poucos dias reflete, acima de tudo, despreparo. Até o ministro da Economia, Paulo Guedes, errou no tom ao atropelar a reforma da Previdência enviada ao Congresso com a PEC do pacto federativo, que desvincula receitas do orçamento da União e divide opiniões. Vai atrapalhar a já difícil votação da Previdência.

Aí todo mundo - inclusive quem votou nele - começa a perguntar: Bolsonaro pode sofrer um impeachment e ser substituído por Mourão, que está se posicionando na pista? Poder, pode. Mas cheira a golpe e será golpe. Não vai ser nada fácil submeter o país a mais um traumático afastamento presidencial, desmoralizando a democracia e o voto recente de 58 milhões de brasileiros. Até porque não há razão formal e legal para um processo contra ele, embora se saiba hoje que, na prática, isso não importa tanto.

Acima de tudo, os arrependidos que apoiaram e votaram em Bolsonaro e agora já querem vê-lo pelas costas - boa parte das elites que pretendiam se livrar do PT - devem aprender a lição: pensem melhor antes de votar na próxima eleição. Agora é tarde, e vão ter que aguentar quatro anos.

Helena Chagas é jornalista