E SE NÃO TIVESSE HAVIDO JOESLEY? - CELSO ROCHA DE BARROS

25/12/2017

FONTE - FOLHA DE SP 

O ano de 2017 entrou para a história brasileira como o ano de Joesley. Em conversa com o picareta da JBS, o presidente da República defendeu a compra dos silêncios de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro. A divulgação da gravação deu início à crise que consumiu o resto do ano.

Em entrevista recente a esta Folha, o senador Romero Jucá repetiu a versão de que o caso Joesley teria sido uma armação do ex-PGR Rodrigo Janot, aproveitando para jogar na conta de Janot o fracasso da reforma da Previdência.

Tudo que Jucá diz sempre traz a pergunta: ele diria a mesma coisa em uma conversa gravada por Sérgio Machado sem sua autorização? Nesse caso, como nos outros, acho que não.

A versão de Jucá, que deve embasar o discurso de um eventual candidato governista à Presidência em 2018, é mentira.

Em primeiro lugar, porque não foi Janot quem obrigou Temer a cometer crimes, encontrar-se com Joesley, e sugerir a compra do silêncio de seus cúmplices. Janot foi só o sujeito que pegou Temer fazendo isso.

Mas não é só isso.

Não há dúvida de que o "Joesley Day" foi uma inflexão na história do governo Temer. Há gente no mercado que lamenta o escândalo, pensando no que poderia ter sido a atual administração se o presidente da República não tivesse abandonado qualquer preocupação com o país para mobilizar todas as instituições fundamentais da República (Carlos Marun, Gilmar Mendes) para se salvar da cadeia.

Na verdade, lamentar o "Joesley Day" é lamentar a Lava Jato.

Não é possível imaginar um cenário em que o Brasil tivesse uma ofensiva forte contra a corrupção e a cúpula do PMDB não fosse atingida em cheio, atingida de morte. Não interessa que o PMDB tenha excluído o "P" do nome, ele continua sendo uma atota de icaretas que fazem ilantragens com o atrimônio úblico.

Se não fosse por Joesley, o núcleo duro do governo Temer teria sido pego por outra coisa. Não parece que teria sido difícil pegar Rocha Loures. Geddel guardava milhões em malas. E, no fim das contas, Funaro falou. Essas coisas só não tiveram a dimensão do "Joesley Day" porque o "Joesley Day" já tinha rebaixado as expectativas sobre Temer.

O plano original do governo Temer era aliviar a classe política na Lava Jato e comprar apoio do mercado com reformas. Até que vem dando certo (para os idealizadores da coisa toda), mas o ano de 2017 mostrou que esses dois objetivos às vezes entram em conflito.

Os recursos e o capital político usados para livrar Temer das denúncias de Janot poderiam, é claro, ter sido usados para aprovar reformas. Por outro lado, certamente há políticos que acham besteira perder tempo com reformas em vez de se concentrar na construção do acordão anti-Lava Jato.

Mas o governo Temer é essas duas coisas, e não há como separá-las. Quando derrubaram Dilma, foi esse o pacote que compraram. O governo Temer é mais ou menos o que se esperava desde o início, com as mesmas vantagens e os mesmos defeitos.

Enfim, se o pessoal do mercado quiser concordar com o Jucá da entrevista da semana passada, também concordar com o Jucá da gravação do Sérgio Machado, que achava que a solução era colocar o Michel, em um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo. Sem isso, o PMDB seria pego mais cedo ou mais tarde, com ou sem Joesley.

MEU COMENTÁRIO:

Do que não pairam mais dúvidas, em minha modesta opinião, é que Temer, além de comandante-em-chefe do esquema, foi o instrumento para que a Lava Jato fosse atacada e a bem dizer contida. 

O impeachment de Dilma e a ascensão do até então inexpressivo vice, mais interessado em seus "negócios políticos" do que no poder de fato, realmente visava "estancar a sangria", o que parece já obtido.