EDUARDO EMBAIXADOR? - IGOR GIELOW

12/07/2019

ANÁLISE

Ligação de Eduardo Bolsonaro com radicais de direita deve gerar obstáculos

Deputado é próximo de ultraconservadores americanos; ala militar perde novamente

FONTE - FOLHA DE SP 

Igor Gielow  SÃO PAULO

Eduardo Bolsonaro não gosta de ser chamado de chanceler sombra, apelido que ganhou nos corredores do Itamaraty pela sua influência sobre o titular do ministério, Ernesto Araújo. Com sua virtual ida para o principal posto da diplomacia no exterior, ele poderá clamar mais: virou chanceler "de facto".

O bolsonarismo mais ideológico, como se convencionou chamar, deriva de um grupo de discípulos do escritor Olavo de Carvalho, radicado nos EUA e que esteve presente num sem-número de polêmicas com militares presentes no governo.

Araújo havia sido apresentado a Olavo, a quem chama de professor, pelo diplomata Nestor Forster -até aqui o favorito para ser o novo embaixador nos EUA. O escritor indicou Araújo como nome para o Itamaraty à família Bolsonaro, e Eduardo foi quem chancelou seu nome junto ao pai

Agora, estará em posição de efetivar o alinhamento desejado pelo pai com a maior potência mundial, com implicações estratégicas e políticas ainda a serem definidas.

Quem não ficou feliz foi a ala militar do governo, que tem ojeriza à influência da família de Bolsonaro e queria ver o sociólogo Murilo de Carvalho na cadeira de embaixador.

Para registro, aliás, essa é mais uma derrota em série dos militares do governo para a ala olavista, que já havia visto ser ejetado o respeitado general Carlos Alberto Santos Cruz do Planalto após uma rusga com Olavo, entre outros embates.

Mas os olhos seguirão atentos para quaisquer movimentos que possam influenciar assuntos práticos e que dizem respeito direto aos militares, a crise na Venezuela especialmente. Eduardo foi bastante ativo, assim como Araújo, no apoio à tentativa frustrada de golpe por parte do presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, para derrubar a ditadura de Nicolás Maduro.

No começo do ano, quando gozavam de maior prestígio interno, os militares estabeleceram uma tutela sobre os movimentos de Araújo. Como afirmou um general da ativa, com o filho do presidente a coisa pode ser diferente, e os EUA têm interesses que podem ser apoiados pelo Brasil na região.

Dono de um teclar afiado para defender posições conservadoras e do governo de Donald Trump, Eduardo caiu logo nas graças da Casa Branca. O presidente fez mesuras públicas a ele durante a viagem de Bolsonaro aos EUA, em março, e o filho esteve junto ao pai em todos os encontros oficiais.

Isso gerou ciúmes na diplomacia à época, assim como a presença constante do assessor internacional do Planalto, Filipe Martins, um jovem filiado aos flancos mais fundamentalistas do olavismo e do bolsonarismo.

Araújo queixou-se a interlocutores do protagonismo do amigo Eduardo, mas eles sempre atuaram juntos. Além disso, o deputado estabeleceu uma ligação forte com o establishment conservador americano e também com sua ala mais radical, representada pelo antigo ideólogo e assessor de Trump, Steve Bannon.

O americano montou uma rede internacional para propagar o que chama de guerra contra o marxismo cultural, e nomeou Eduardo como seu representante no país. O grupo tem ligações fortes com países como a Itália do líder Matteo Salvini e a Hungria do premiê Viktor Orbán.

Não por acaso, desde que assumiu a Comissão de Defesa e Relações Exteriores da Câmara, o deputado visitou ambas as nações.

Essas credenciais ultraconservadoras deverão dificultar a vida de Eduardo em Washington. O relacionamento com o poder americano não pode se resumir ao Executivo.

O Congresso é instrumento tão ou mais importante, e o domínio democrata na Câmara dos Representantes poderá garantir antipatia a pleitos brasileiros que sejam negociados por Eduardo. O episódio em que o prefeito democrata de Nova York repudiou uma eventual ida de Bolsonaro à cidade está aí para provar.

Naturalmente, tudo isso passa por Eduardo ser aprovado em sabatina no Senado brasileiro, o que enseja especulações sobre o pedágio político que o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), irá cobrar.

Por fim, há a consideração óbvia: Portugal sempre foi um retiro diplomático para políticos importantes sem cargo, mas nunca Washington foi ocupada por um critério tão pessoal.

Na diplomacia mundial, filhos de governantes em embaixadas importantes são vistos com desconfiança, como uma prática mais comum a regimes autocráticos como a Arábia Saudita.