CINEMA: "EU TONIA", DA FAMA A INFÂMIA - ISABELA BOSCOV

22/02/2018

"Eu, Tonya": da fama à infâmia

A turbulenta (e às vezes inacreditável) história da patinadora Tonya Harding, contada com unhas e dentes

Por Isabela Boscov - FONTE: VEJA.COM


"E a culpa por acaso é minha?", a protagonista pergunta ao espectador pelo menos uma meia dúzia de vezes no decorrer de Eu, Tonya - ela questiona que seja culpa sua as lâminas dos patins estarem mal colocadas, o cadarço ter quebrado, seu casamento ser um horror, seus figurinos brega fazerem os juízes tirar pontos das suas notas. E essa, no fundo, é a questão do filme estrelado com garra (e unhas e dentes) por Margot Robbie: entre todas as questões cuja responsabilidade Tonya rejeita, há uma que verdadeiramente esteve sempre fora do seu alcance resolver - o fato de ser uma representante daquilo que os americanos ofensivamente chamam de "white trash", ou "lixo branco". Ou seja, branca mas pobre, subempregada, sem escola, acostumada a apanhar da mãe e depois do marido, criada na ignorância. E, com tudo isso, possuidora de um talento extraordinário para a patinação artística, na qual entrou aos 4 anos e pela qual se matou de treinar, com a mãe, a tenebrosa LaVona (Allison Janney, estraçalhando no papel) abrindo-lhe o caminho a cotoveladas. Tonya Harding passou de famosa a notória em 1994, aos 22 anos, quando um amigo burríssimo de seu marido (que já não era assim um brilho) contratou um malandro qualquer para estourar com uma paulada o joelho da grande adversária de Tonya no gelo, Nancy Kerrigan. O sujeito errou o alvo, acertou a perna de Nancy em vez do joelho, e ela conseguiu se recuperar a tempo de ir para a Olimpíada de inverno. (Nancy, aliás, vinha de uma família operária, mas tinha aparência e modos bem mais principescos, e ao gosto do comitê de patinação, do que Tonya, cujas origens eram denunciadas de cara pelo cabelo queimado de permanente caseira e pelo jeito encrenqueiro.)

(Califórnia/Divulgação)

O episódio virou uma novela, com Tonya no papel de vilã. Até hoje, há dúvidas sobre o quanto ela sabia, ou não, do plano de atacar Nancy. Mas, na direção do australiano Craig Gillespie - assim como em Três Anúncios para um Crime, parte aqui de um estrangeiro a curiosidade sobre essa parcela dos americanos que se colocou no centro do palco com a eleição de Donald Trump -, acompanha-se a história de Tonya desde a infância, passando por todo o imbróglio policial do ataque a Nancy, à procura de um outro fio dessa meada: a violência que é determinar o ponto até que uma pessoa pode chegar tendo como base seu ponto de partida. Tonya nunca foi a melhor amiga de si mesma. Mas talvez nunca lhe faltou gente disposta a ser sua imimiga.