FELIZ ANO VELHO - VEJA.COM

01/01/2018

Feliz ano velho

Por enquanto não há nada que se apresente como opção para 2018 que realmente possa ser considerado novo — nem as caras nem as ideias

É notória a repulsa à chamada “velha política”. Michel Temer, que fez do fisiologismo o dínamo de seu mandato, tornou-se o presidente mais impopular desde a redemocratização. Principal fiador de seu governo, o Congresso também atingiu um nível inédito de rejeição depois de a Câmara, em troca de cargos, emendas e outras benesses, arquivar as denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República contra Temer. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada em dezembro, 60% dos entrevistados consideram o trabalho de deputados federais e senadores ruim ou péssimo. Esses dois recordes, somados aos escândalos de corrupção sucessivos e suprapartidários, semearam a impressão de que a próxima disputa eleitoral consagraria “o novo” — novos candidatos, novas propostas, novo jeito de fazer política, tudo com o objetivo de aproximar os representantes dos representados e moralizar a administração pública. Tal expectativa, no entanto, mostra­-se frustrada até agora. Mantido o cenário atual, a campanha eleitoral de 2018 será estrelada por rostos, ideias e práticas bem conhecidos. Um prenúncio de que a “velha política” não sairá tão cedo de cena.

O líder da corrida presidencial, segundo o Datafolha, é Lula (PT), com 34% das intenções de voto. Com cinco candidaturas ao Palácio do Planalto e dois mandatos de presidente no currículo, o petista retomou o figurino dos idos tempos de oposição. Em suas andanças pelo país, apresenta-se como vítima de uma perseguição da elite, com a qual confraternizou ao chegar ao poder, e prega contra a reforma da Previdência, projeto que, se eleito, terá de aprovar, exatamente como fez em 2003. A guinada retórica de Lula à esquerda visa a consolidar, ou reconquistar, o voto de setores que sempre foram simpáticos ao PT, mas se distanciaram do partido devido ao fiasco da gestão Dilma Rousseff e ao desgaste provocado pelo escândalo da Lava­-Jato. Esse discurso destina-se a garantir a eleição, pelo menos, de uma bancada expressiva de deputados federais. É uma tentativa de defender certa reserva de mercado entre movimentos sociais e servidores públicos. Se Lula vencer a sucessão presidencial, não terá dificuldade de abandonar o que está dizendo agora e adotar medidas de austeridade fiscal. Outros mandatários já fizeram isso, e o próprio petista se definiu, certa vez, como uma “metamorfose ambulante”.

Lula não está preocupado com os esquerdismos entoados no palanque, mas com a possibilidade de o Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região confirmar sua condenação à prisão, pavimentando o caminho para que ele seja enquadrado na Lei da Ficha Limpa e proibido de disputar a eleição. Não há outro nome competitivo no PT para concorrer à Presidência, e a responsabilidade por isso é do próprio Lula. Ele sempre dificultou a formação de novos líderes e sufocou as tentativas de renovação partidária. É sintomático que o PT negue até hoje a existência do mensalão e do petrolão e só faça de forma tímida, quase imperceptível, um mea­-culpa pela política econômica desastrosa de Dilma. O “novo”, portanto, dificilmente emergiria nesse terreno. No ninho tucano, as coisas não são muito diferentes em termos de renovação. O favorito para disputar a Presidência pelo PSDB é Geraldo Alckmin, que cumpre seu quarto mandato como governador de São Paulo. Em quarto lugar na pesquisa Datafolha, com 6% das intenções de voto, Alckmin já disputou o cargo em 2006, quando perdeu para Lula.

Mesmo com as derrotas sofridas nas últimas quatro eleições presidenciais, os tucanos não reformularam a maneira de escolher seu representante no páreo. Como de costume, tudo foi resolvido num conciliábulo entre os principais líderes do partido, que ungiram Alckmin. Antes de ser gravado achacando o empresário Joesley Batista em 2 milhões de reais, o senador Aécio Neves era barbada para concorrer de novo à Presidência. Com sua derrocada, tucanos aventaram a possibilidade de lançar o prefeito de São Paulo, João Doria, que venceu a eleição municipal vendendo-se como o “novo”. Doria, no entanto, ficou pelo caminho, vítima das bicadas que trocou com outros tucanos e da queda acentuada de sua popularidade. Ao PSDB não restou alternativa que não o governador paulista. Dos cinco primeiros colocados na pesquisa para presidente, quatro já disputaram o cargo. Além de Lula e Alckmin, são eles: Marina Silva, que está em terceiro lugar na pesquisa, com 9%, e Ciro Gomes, com 6%. Egressa do PT, a ex­-senadora e ex-ministra Marina fundou um novo partido, a Rede, e continua entocada, repetindo um recolhimento que enervou seus correligionários na corrida presidencial de 2014.

PDT e REDE - Ciro Gomes e Marina Silva


Já Ciro Gomes, que foi governador do Ceará, ministro da Fazenda de Itamar Franco e ministro da Integração Nacional de Lula, tentará sua terceira candidatura à Presidência pelo PDT. É o sétimo partido de Ciro, que, à falta de uma camisa com a qual se identifique, veste a que serve a seu propósito pessoal. Até o momento, a única “novidade” na corrida presidencial é o deputado federal Jair Bolsonaro, do Rio de Janeiro. “Novidade” só porque ele nunca disputou o posto e tem carreado a simpatia dos setores do eleitorado que passaram a negar a política, um fenômeno que ganhou força recentemente. Tirando esses dois fatores, Bolsonaro é mais do mesmo. Um veterano. Um profundo conhecedor de cada regra do jogo. Bolsonaro está em seu sétimo mandato na Câmara, em seu oitavo partido, o PSC, e negocia uma mudança para uma nona legenda. Com ideias extremistas e discurso virulento, o ex-militar aparece em segundo lugar no ranking do Datafolha, com 17%, e disputaria o segundo turno se a eleição fosse hoje. Quanto mais ele se consolida na corrida presidencial, mais se estreita o espaço para que outra “novidade”, verdadeira ou de fancaria, suba no tablado. Há pelo menos três pré-candidatos que pretendem apresentar-se como “o novo” em 2018.

O presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro (PSC), e o empresário João Amoêdo, do Partido Novo, registraram 1% e traço na pesquisa do Datafolha. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), também não decolou e amarga 1% das intenções de voto. Apesar da passagem pelo PSDB e dos serviços prestados a Lula e a Temer, Meirelles tenta mostrar-se como alguém de fora da política, um técnico acima das rivalidades e questiúnculas partidárias. É tamanho o abismo entre a expectativa pelo “novo” e o protagonismo da “velha política” que até o presidente Temer pensa em disputar a reeleição. Em artigo publicado em VEJA, o jornalista Eduardo Oinegue constatou que o “novo” não aparece nem na idade dos presidenciáveis. A média etária dos pré-candidatos considerados pelos institutos de pesquisa é de 67 anos, a mais alta de todas as campanhas presidenciais da história republicana. “Nas 22 campanhas diretas desde 1894, em apenas cinco a faixa etária média dos postulantes superou os 60 anos. Nunca passou dos 63. Na última campanha, a média foi de 59 anos”, observou Oinegue.

PSD - Henrique Meirelles


Uma combinação de fatores explica a dificuldade de renovação. Um deles é o silêncio das ruas. Diferentemente do que ocorreu em junho de 2013, quando os protestos fervilhavam pelo país, as manifestações atuais se restringem basicamente ao conforto das redes sociais. Impera um misto de cansaço e indiferença. Há ainda uma percepção generalizada de que todos os grandes partidos estão metidos em confusão e, portanto, equivalem-se em práticas condenáveis. “É impossível tirar a política do atoleiro com os políticos que estão aí. A primeira tarefa que se impõe é promover uma ampla renovação”, diz o ex-deputado Fernando Gabeira. Eis o busílis: a maioria das legendas é comandada pelos mesmos dirigentes há anos, às vezes décadas. A falta de democracia interna é a regra. Lula manda e desmanda no PT. Os mensaleiros Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, mesmo condenados à prisão, jamais perderam as rédeas do PR e do PTB. O PSDB lida, pela primeira vez em tempos, com um levante interno, no qual os “cabeças-­pretas”, os mais jovens, não aceitam seguir cegamente as orientações dos “cabeças-brancas”, os mais experientes. O próprio Temer dirigiu o PMDB durante quinze anos, e está somente licenciado do comando da sigla.

O governador Alckmin


Em dezembro, o PMDB decidiu tirar o “P” do nome, numa tentativa de mostrar compromisso com a renovação, como se a supressão da consoante tivesse o poder de fazer sumir as denúncias de corrupção que atingem seus principais caciques. “Enquanto não tivermos partidos políticos democratizados, livres das mãos dos cartolas, não adiantará mudar detalhes no sistema, porque todo o sistema está doente. Os donos dos partidos controlam a vida do Estado. É uma ditadura disfarçada”, diz o filósofo Roberto Romano. Coordenador da força-tarefa da Lava­-Jato em Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol concorda: “Hoje a sociedade fica prisioneira da corrupção. Existe uma espécie de seleção natural dos corruptos. É muito difícil alguém substituir os grandes líderes partidários, as lideranças contra as quais pesam grandes evidências de corrupção”.


Bolsonaro procura um ninho

Jair Bolsonaro movimenta multidões, tem um batalhão de defensores nas redes sociais e briga pela liderança na disputa à Presidência — mas ainda não tem um partido para chamar de seu. O deputado está de saída do PSC (o oitavo pelo qual passou) e busca um novo ninho para 2018. As negociações seguem a todo o vapor e repetem, em torno do candidato que engrossa a voz para dizer que é diferente dos grandes caciques, o que há de mais tradicional na política: barganhas, brigas por espaço e disputa por poder. O deputado assinou um, digamos, pré-­contrato com o PEN, e a migração definitiva está programada para março. Enquanto não veste a camisa da nova legenda, o presidenciável tenta faturar. Do acordo inicial, que previa a mudança no nome do partido (que agora se chama Patriota), um naco da executiva nacional e adaptações no estatuto para incluir suas bandeiras, como o combate à legalização do aborto e das drogas, tudo foi milimetricamente cumprido, segundo as lideranças do partido. “Dinheiro eu nunca tive, mas palavra eu tenho”, disse Bolsonaro em agosto, comprometendo-se a, até março de 2018, passar a integrar a nova legenda sem pedir nada em troca. O deputado, ao que parece, mudou de ideia.

As demandas da equipe de Bolsonaro começaram com tímidos pedidos de cargos na executiva e algumas presidências estaduais. Em dezembro, a lista havia crescido para 100% das presidências — inclusive a do próprio partido — e 51% dos diretórios. A equipe de negociadores de Bolsonaro, encabeçada pelo advogado Gustavo Benevides, já deu o ultimato: se o Patriota não quiser aceitar os termos, o presidenciável procurará outra legenda. Diante das pressões, Adilson Barroso, fundador e presidente do Patriota, conta que aceitou até ceder a presidência do partido. Mas ainda assim não foi suficiente. “Os advogados dele falam: ‘Nós queremos o partido inteiro. Queremos que você entregue tudo’. Aí eu vi que era abuso, ganância”, afirmou Barroso. O Patriota é o menor partido da Câmara — tem apenas três deputados — e, por isso, recebe uma magra fatia da verba destinada a financiar as agremiações. Com Bolsonaro, projeta inflar a bancada para até cinquenta deputados. “Imagine, um ex-cortador de cana como eu eleger um presidente? Vou ficar conhecido internacionalmente”, diz o presidente do Patriota.

Apesar de já figurar como a estrela nas propagandas do Patriota, Bolsonaro flerta com outras legendas. No último dia 21, o deputado se reuniu com dirigentes do PSL, outro partido nanico, para discutir um projeto econômico e uma possível parceria. Ele também está em tratativas com o PR — aquele que até recentemente tinha o presidente, Antônio Rodrigues, preso e conta com “estrelas” como o mensaleiro Valdemar Costa Neto e o ex-governador do Rio Anthony Garotinho. No rol de possibilidades, não está descartada, inclusive, a permanência no próprio PSC do pastor Everaldo Dias Pereira, citado nas planilhas da Odebrecht. Ainda não há, porém, uma definição de qual será o novo abrigo do segundo colocado nas pesquisas eleitorais. Num verdadeiro leilão, as legendas têm oferecido o que podem para tentar fisgar o presidenciável. A assessoria de Bolsonaro afirma que a decisão será tomada até meados de janeiro.

Ana Clara Costa e Marcela Mattos

Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2017, edição nº 2563