Jardim, pintado para a guerra

02/11/2017

02/11/2017 - 02h59

Ricardo Noblat

Auxiliares de Torquato Jardim, ministro da Justiça, entraram pela madrugada reunindo informações para a montagem de um dossiê sobre a infiltração pelo crime organizado da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Dele não farão parte informações confidenciais capazes de por em risco investigações ainda em curso.

Jardim está decidido a não recuar das afirmações que fez a respeito da sociedade entre parte da PM e o banditismo. Até agora, o presidente Michel Temer não lhe cobrou nada parecido com o dar o dito pelo não dito. Ouve que suas recentes entrevistas sobre o assunto causaram desconforto no governo. Mas não liga.

Não deu importância ao anúncio feito pelo governador Luiz Fernando Pezão de que irá interpelá-lo na Justiça, exigindo que apresente provas do que disse. Se for convocado pela Câmara dos Deputados a se explicar, irá com entusiasmo. Como bom advogado, sente-se seguro para expor seus argumentos e, se necessário, virar o jogo a seu favor.

Só deve a Temer sua nomeação para ministro da Justiça. Está ministro, não é ministro. Se amanhã deixar de ser, retornará ao seu escritório de advocacia e... Bola para frente. Imaginava que suas falas provocariam reações dos que se sentiram atingidos por elas. Não imaginava que tão poucos ou quase ninguém saísse em sua defesa.

O que Jardim disse não é apenas o que ele pensa e ousou dizer. É o que pensam e dizem todos os ministros do governo ligados à área da defesa e da informação estratégica. O governo não dispõe de plano algum para tentar começar a resolver a situação de insegurança do Rio pelo simples fato de que lhe resta pouco tempo de vida.

Uma intervenção federal no Rio seria impensável. Paralisaria o governo federal e prejudicaria os demais Estados. Impensável também seria uma intervenção branca. Algo assim, para dar certo, exigiria a colaboração do governo local. E o governo do Rio carece de autoridade e de comando para encarar o que lhe caberia fazer.

Jardim espera ter contribuído para alertar o país sobre um grave problema que não é apenas do Rio, mas que ali adquiriu dimensões extraordinárias. E é só. Está pintado para a guerra, se necessário. Mas não a deseja.