JEFFERSON, SIMBOLO DE UMA MODERNIDADE - ELIO GASPARI

07/01/2018

FONTE - O GLOBO, RJ

O ex-deputado Roberto Jefferson, que teve seu clã resgatado (nas suas palavras) com a nomeação da filha, Cristiane Brasil, para o Ministério do Trabalho, simboliza o anacronismo incrustado na elite iluminada e reformista do país. Das reformas do "collorato", cuja tropa de choque ele comandou com 70 quilos a mais, ao reformismo de Michel Temer, Roberto Jefferson é a face parlamentar de um bloco político que vai do Congresso à Avenida Paulista. Numa ponta, a da avenida, ele é cosmopolita e tem currículo de grifes. Noutra, a do plenário de Brasília, tem prontuários.

O doutor Jefferson foi condenado a sete anos de cana por corrupção. Passou três anos preso, ganhou o benefício do regime aberto e, em 2016, foi indultado. Sua filha Cristiane estava na equipe da modernidade do Rio de Janeiro, ao tempo do prefeito Eduardo Paes, com títulos típicos da época: secretária Extraordinária da Terceira Idade e secretária Especial do Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida.

A ida da senhora para o ministério destinou-se a garantir a fidelidade dos 26 votos do bloco partidário liderado pelo PTB, presidido por seu pai, na votação da reforma da Previdência.

Há uma disfunção entre a natureza ideológica das reformas de Temer e a essência fisiológica de sua base parlamentar. À primeira vista, alguém está enganando alguém, mas cada lado acha que está enganando o outro e ambos acreditam que estão enganando todo mundo.

Não há novidade nisso. Antonio Palocci, o queridinho da banca no primeiro governo de Lula, está na cadeia, mas é falta de educação falar nisso. O "Italiano" da Odebrecht não sabia, mas encarnava o paradoxo de Roberto Campos. Liberal brilhante, em 1982 ele se elegeu senador por Mato Grosso, um estado com razoável população indígena. No mesmo ano, o Rio de Janeiro, onde só há índios no bloco Cacique de Ramos, elegeu o xavante Mário Juruna para a Câmara Federal. A eleição de Campos entrou para a crônica do caixa dois das eleições nacionais.

FH e Alckmin

Uma banda do tucanato eriçou-se porque Fernando Henrique Cardoso disse que, na hipótese de aparecer um candidato a presidente com capacidade de unir o centro, o PSDB deve apoiá-lo, mesmo que não pertença ao partido: "Vai fazer o quê?"

Esse enunciado do óbvio foi entendido como uma joelhada na candidatura do governador Geraldo Alckmin, e FH soltou uma nota explicando-se, sem desmentir-se.

FH duvida que a candidatura de Alckmin voe. Apesar de existirem diversos tipos de doidos, nunca se soube de alguém que entrasse em avião sabendo que ele ia cair.

Xô, Clinton

O jornalista Michael Wolff revelou no seu livro "Fire and Fury" que Donald Trump dava por certa a sua derrota na eleição de 2016.

O Trumpistão que se instalou na Casa Branca deriva, em parte, dessa perplexidade. Não foi Trump quem ganhou, foi Hillary Clinton, com sua postura majestática, quem perdeu. Se Deus tiver pena do Partido Democrata, dará um jeito de livrá-lo do casal Clinton na campanha deste ano.

Judeus na Portela

Luis Carlos Magalhães, presidente da Portela, lembra que sua escola de samba vai para a Sapucaí com um enredo intitulado "De repente de lá pra cá e dirrepente de cá pra lá...".

Nele contará a história dos judeus que viviam no Recife durante a ocupação holandesa (1630-1654) e foram expulsos depois da restauração. Um grupo de 23 deles bateu na atual Nova York. Eram quatro casais, duas viúvas e 13 crianças. Comeram o pão que Asmodeu amassou, porque o governador holandês não queria judeus na sua terra.

Quem?

O ministro Henrique Meirelles, com familiares e alguns amigos, começou o ano na festa do terraço do hotel Emiliano, no Rio.

Uma pessoa que estava por perto garante que nenhum garçom sabia quem era aquele careca feliz.

Para candidato a presidente, é um mau começo, pois quem decide eleição é a cozinha.

Provocação

O prefeito tucano de Porto Alegre, doutor Nelson Marchezan Jr., teve a primeira péssima ideia do ano. Pediu ao presidente Michel Temer que coloque tropas do Exército nas ruas de sua cidade no dia 24, quando o TRF-4 julgará Lula.

Marchezan diz que fez isso "para proteger o cidadão e o patrimônio público". Acredita quem quiser. O Rio Grande é protegido por uma Brigada com 18 mil militares.

O nível de inteligência dessa iniciativa pode ser comparado ao dos "generais do povo", que puseram tanques para enfeitar as cercanias do comício da Central no dia 13 de março de 1964.

Porto Alegre

Há no PT uma articulação para transformar o ato de apoio a Lula num espetáculo de ordem. Para isso, haverá um esquema de pacificação, de olho em provocadores.

O comissariado escaldou-se com o que aconteceu em Brasília em abril. Dentro da manifestação petista havia um grupo escolhido para invadir o Congresso. Antes que ele se mexesse, mascarados, saídos sabe-se lá de onde, começaram a quebrar prédios da Esplanada dos Ministérios.

O quebra-quebra levou o governo a botar uma tropa do Exército na rua, dizendo que atendia a um pedido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o que era falso.