LAVA JATO VIVE CRISE DE UMA INVESTIGAÇÃO LONGEVA - JOSIAS DE SOUZA - BLOG DO JOSIAS 

13/03/2019

Sergio Moro transferiu-se para Brasília movido pelo desejo de virar um centro-avante da Lava Jato no epicentro do poder. Foi convertido num zagueiro precário, driblado pelas circunstâncias. Ao mesmo tempo, a força-tarefa de Curitiba marcou um gol de placa. Gol contra.

Em dezembro do ano passado, numa palestra em Madri, Moro recorreu a uma metáfora futebolística para tentar explicar o que o levou a trocar a carreira de 22 anos na magistratura pela poltrona de ministro da Justiça. Estava "cansado de tomar bola nas costas".

Moro esmiuçou o raciocínio: "Meu trabalho no Judiciário era relevante, mas tudo aquilo poderia se perder se não impulsionasse reformas maiores, que eu não poderia fazer como juiz." Sob Jair Bolsonaro, Moro vai perdendo a conta do número de bolas lançadas no seu costado.

Simultaneamente, a força-tarefa de Curitiba passou a fornecer a munição que a oligarquia político-empresarial, ferida, buscava para realizar o seu revide contra a Lava Jato. A ideia de abrir uma fundação privada anticorrupção com R$ 2,5 bilhões provenientes de uma punição aplicada pelo governo dos Estados Unidos contra a Petrobras revelou-se um disparo de míssil contra a logomarca da Lava Jato.

A pancadaria levou Curitiba a realizar um recuo tático. Mas a suspensão do projeto da fundação não deteve a reação. A procuradora-geral Raquel Dodge puxa no STF o coro de "mata-e-esfola."

Nem Sergio Moro se animou a defender os procuradores. Compreensível. O ministro está ocupado com a contagem das bolas que lhe escapam. Antes, fazia e acontecia. Agora, não consegue nomear uma pesquisadora com o gabarito de Ilona Szabó para a suplência de um conselho. Outrora, mandava prender. Hoje, oferece negociação a quem merece interrogatório.

Forçado a segregar a criminalização do caixa dois do seu pacote anticrime e anticorrupção, Moro teve de fazer ginástica lingual para se desdizer. A despeito da rendição, assiste à transferência do seu embrulho da vitrine para o fundo da loja. Não há lugar no mostruário senão para a reforma da Previdência.

Noutros tempos, Moro combatia malfeitorias. No momento, convive com elas. Observa ao redor um colega de ministério condenado por improbidade. Outro é investigado por caixa dois. Um terceiro está enrolado no escândalo do laranjal do PSL. Como se fosse pouco, arde no organograma da pasta de Moro o Coaf, provedor de dados que expõem desde os pés de barro de Flávio 'Zero Um' Bolsonaro até um repasse esqui$ito de R$ 24 mil à primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Com tantas bolas passando por cima de sua cabeça, é natural que Moro meça as palavras. Mas não faz sentido que fale menos agora do que antes, quando era obrigado por lei a se manifestar apenas nos autos. Nesse ritmo, o silêncio pode ser confundido com cumplicidade. E a confraternização da virtude com o vício tornará mais difícil para quem observa à distância distinguir quem é quem.

Com os procuradores de Curitiba sucedeu algo diferente, embora o resultado seja parecido. Nem os mais severos críticos são capazes de negar o idealismo dos rapazes da Lava Jato. O problema é que, por mais que Deltan Dallagnol tentasse explicar, as boas intenções que encostaram uma fundação privada nas verbas provenientes da Petrobras ultrapassaram a fronteira que separa o idealismo da militância. Para complicar, o acordo celebrado com a estatal ganhou a aparência de puxadinho erguido no acostamento da legislação.

O mais dramático é que os procuradores se autoconverteram em instrumento de fins alheios à sua missão institucional num instante em que o Supremo Tribunal Federal debruça-se sobre um daqueles processos que Sergio Moro chamaria de "bola nas costas."

Está na pauta da sessão desta quarta-feira o julgamento em que a Suprema Corte pode transferir da Justiça Federal para a Justiça Eleitoral todos os casos de corrupção em que a ladroagem, além de encher os bolsos de corruptos, tenha servido para abastecer o caixa dois de campanhas. Seria como embarcar corruptos numa viagem de infernos como a Lava Jato para o Éden da impunidade.

Durante o julgamento, ministros que torcem o nariz para a desenvoltura de Curitiba não hesitarão em malhar diante das câmeras da TV Justiça a fundação natimorta da Lava Jato. Isso é tão certo quanto o nascer do Sol. Sobretudo depois que a própria procuradora-geral da República malhou os colegas numa ação protocolada no Supremo na noite da véspera.

Ao pedir ao Supremo o enterro da fundação da Lava Jato, Raquel Dodge dedicou aos procuradores um tratamento de empreiteiros: "Não é possível que órgão do MPF, em decorrência do exercício de suas atribuições funcionais, possa desempenhar atividades de gestão de recursos financeiros de instituição privada, nem definir onde serão aplicados, muito menos ter à sua disposição um orçamento bilionário", escreveu.

A Lava Jato fará aniversário de 5 anos no domingo. Com as gavetas cheias, a operação tem um enorme passado pela frente. Tornou-se o maior e mais bem sucedido esforço anticorrupção já realizado desde a chegada das caravelas. O êxito foi tão retumbante que o principal desafio do enclave de Curitiba passou a ser a administração do seu próprio ego. A dificuldade de lidar com o sucesso é indício de um cansaço dos materiais.