LUIZ INÁCIO AINDA APOSTA EM LULA - RICARDO NOBLAT

26/01/2018

FONTE - BLOG DO NOBLAT, VIA VEJA.COM 

Eu também já acreditei que o povo unido, armado não, derruba ditadura. Como se ele se unisse por essas coisas. Aqui, o "povo" aplaudiu o golpe militar de 64 que se antecipou ao golpe que o presidente João Goulart pretendia dar. Só deixou de apoiar o regime dos generais quando a economia começou a ir para o brejo. Passados tantos anos, o estado precário da economia ajudou a derrubar Dilma. Temer só não caiu porque ninguém quis o lugar dele.

A História se constrói mais à base de versões do que de fatos - e Lula, uma versão bem-sucedida de Luiz Inácio da Silva, sabe disso.

Em 1984, não havia 1 milhão de pessoas no comício da Candelária, no Rio, pelas Diretas, Já. Havia bem menos. Em 1968, a Passeata dos Cem Mil, no Rio, não atraiu cem mil pessoas. Não foi graças ao povo que Fidel Castro, em 1959, chegou ao poder em Cuba. Foi graças à sua ousadia e à ruina da ditadura de Fulgencio Batista. Em seguida, Fidel virou ditador.

O povo russo, unido, não derrubou em 1917 a ditadura do czar de plantão. Talvez jamais derrubasse. Um golpe liderado por Lenin derrubou, e instalou uma ditadura comunista. A de Nicolás Maduro, na Venezuela, mantém-se apesar de a inflação do ano passado ter ultrapassado a marca de 2 mil por cento. Há pouco mais de um ano, o voto popular elegeu a democrata Hillary Clinton para suceder Obama, mas o voto dos delegados partidários empossou o republicano Donald Trump. Deu no que se vê.

"O povo quer Lula de novo", gritam os petistas que se consideram os donos exclusivos da voz do povo. Da parcela que, hoje, diz já ter escolhido em quem votar, 34% dela jura que votaria em Lula. Vinte e pouco por cento dos 34%, que só votaria nele. E metade dos 34% que votaria num candidato indicado por ele. A deste ano será a eleição mais imprevisível das últimas décadas. E não há entidade mais melíflua do que "Sua excelência, o povo". Tanto mais num país como o nosso de absurda desigualdade social.

"A lei é para todos e está acima de todos". Como enunciado é uma beleza. Mas onde é assim? Aqui não é, embora uma nova geração de magistrados pareça comprometida com a ideia. "A democracia é o melhor dos regimes". De fato, é o menos imperfeito deles. Mas onde a democracia existe em todo o seu esplendor? E onde ela não está em crise? Certamente em poucos lugares. Aqui, por ora, ela toma fôlego, manca, arrasta-se, toma fôlego e sobrevive como dá desde 1985 quando foi restaurada depois de um eclipse de 21 anos.