BRASIL ENTRA NA II GRANDE GUERRA EM 1943 - O GLOBO

28/01/2018

Paulo Luiz Carneiro*

Um encontro histórico entre o presidente americano Franklin Roosevelt e o presidente Getúlio Vargas, em 28 de janeiro de 1943, selou a entrada da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial, numa jogada estratégica fundamental para deter o avanço das tropas de Adolf Hitler sobre a Europa. Mesmo com a costa brasileira sob ataques desde 1941, Vargas hesitava em colaborar com os americanos. A edição do GLOBO do dia seguinte narrou a reunião, realizada em Natal, Rio Grande do Norte, na primeira página da edição das 11hs:

"Roosevelt e Getúlio Vargas conferenciam em Natal! O presidente da República, Sr. Getúlio Vargas, acha-se desde ontem em Natal, aonde foi ao encontro do Sr. Franklin Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos da América, que ali esteve em seu regresso de Casablanca a Washington".

A partir de 1939, tendo em vista a inevitabilidade da guerra na Europa e suas possíveis repercussões na América do Norte, os Estados Unidos tomaram a iniciativa de estreitar o relacionamento com o Brasil e de propor um sistema de consulta, caso a guerra eclodisse. O início dessa aproximação foi o convite, em janeiro de 1939, ao ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha, para uma entrevista em Washington. Em maio do mesmo ano, chegou ao Brasil uma missão militar americana, chefiada pelo general George Marshall; em junho, o Chefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro, general Góis Monteiro, visitou Washington, encontrando-se com o presidente Roosevelt. Em 3 de setembro, França e Reino Unido declararam guerra à Alemanha, após Hitler se recusar a deixar a Polônia, ocupada dois dias antes.

As reuniões foram essenciais para que o governo brasileiro cedesse a base aérea, localizada na Região Metropolitana de Natal, que passaria a servir de apoio às Forças Armadas dos EUA. Os americanos entraram na guerra em dezembro de 1941, quando os japoneses atacaram a base de Pearl Harbor, no Havaí. A localização da base brasileira era estratégica para a movimentação das tropas americanas em direção ao norte da África. Menos de sete horas de voo separavam os dois continentes e, por dia, até 1.500 aviões realizavam pousos e decolagens. Cerca de 10 mil homens circulavam pela vila erguida na base aérea, batizada de Parnamirim Field, que ficou sob controle americano de 1941 a 1947.

Em 22 de agosto de 1942, após vários navios mercantes brasileiros serem atacados por submarinos alemães, o governo brasileiro declarou guerra à Alemanha e à Itália. A manchete do GLOBO em Edição Extra foi: "O governo do Brasil reconhece o estado de beligerância entre a Alemanha e a Itália". A declaração de guerra do Brasil teria como consequência imediata a mobilização nacional, econômica e militar. A partir de então, era imprescindível incrementar medidas de proteção ao tráfego marítimo e de defesa do território.

Neste contexto é que Roosevelt, regressando da Conferência de Casablanca, determinou ao embaixador americano no Brasil, Jefferson Caffery, que providenciasse o encontro com Vargas. A conferência, realizada entre 14 e 24 de janeiro no Marrocos, teve o intuito de planejar a estratégia dos Aliados para as fases seguintes da guerra, e reuniu, além de Roosevelt, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o general francês Charles de Gaulle.

No encontro em Natal começaram as primeiras negociações para a participação de tropas brasileiras na Segunda Guerra Mundial, além de terem sido abordadas questões relacionadas ao patrulhamento naval do Atlântico Sul e a cessão de navios mercantes brasileiros aos Estados Unidos. Em troca do apoio brasileiro ao esforço de guerra dos Aliados, Vargas obteve o financiamento da construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, e o compromisso de que a Força Expedicionária Brasileira (FEB) receberia treinamento e equipamento americanos.

A reunião ficou conhecida como Conferência de Natal ou Conferência do Potengi, pois ocorreu a bordo de um destroyer americano atracado no Porto de Natal, localizado às margens do Rio Potengi. As conversas aconteceram em clima informal, e os dois presidentes, que dialogaram quase sem a participação de assessores, depois atravessaram a cidade em um jipe militar. A imagem icônica ficou registrada e mostra os dois presidentes sorrindo. Na edição de 30 de janeiro. o fato foi assim registrado:

"Dali a pouco os dois presidentes atravessam a cidade, e então, só então o povo descobre tudo e explode numa dessas manifestações inesquecíveis, apoteóticas, que se gravam para sempre na retina e no espírito. Sorridentes, efusivos, Roosevelt e Vargas agradeciam, acenando com as mãos, as explosões entusiásticas do povo".

A grande presença de militares americanos em Natal e em Recife, que sediava o centro das operações navais, mudou a vida das cidades e reforçou a relação entre os dois países. Pode-se dizer que foi o início da entrada da cultura de massa americana no Brasil, até então mais influenciado pela Europa.

* com edição de Matilde Silveira