O AVESSO DO MESMO LUGAR - TANIA FUSCO

12/03/2019

O avesso do mesmo lugar

Dona Damares é uma das duas ministras que o capitão-presidente garante: Valem por 20.

Por Tânia Fusco   BLOG EM VEJA.COM 

Morrer de meningite. Também de bala, lama, faca, martelo, soco, fogo ou enchente. Ainda de sarampo, dengue, febre amarela ou tétano. Morrer no Brasil é moleza. Facilidade dobrada para mulheres, negros, homos e pobres que, somados, são maioria dos nossos 208 milhões de habitantes.

Difícil sobreviver à desassistência, à violência, à ignorância. Sem cerimônia ou recuo, as duas primeiras castigam a população. A ignorância - que não tem nada a ver com letras e números aprendidos -, entre outros danos, faz fugir das vacinas básicas, trazendo de volta surtos de doenças já erradicadas - Sarampo, por exemplo.

Maldita ignorância. Ela concede indulgência plena à barbárie, aos deboches e desacertos institucionais de autoridades, parceiros, fantoches e subalternos.

Não dá pra mudar de assunto. É bingo na Damares Alves, que comanda o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e dali desfia seu rosário crenças. Garante que os meninos entendem assim a igualdade de gênero: "Já que a menina é igual, ela aguenta apanhar". O que, no mínimo, pode ser lido como: Homem que é homem aguenta apanhar. Isso é normal e começa na meninice.

Damares não é pandega. Nem louca. Crê biblicamente no que fala. Entende que, ao exigir igualdade, a mulher "aquece o ódio dos homens". Ficou claro? Somos as perigosas agentes provocadoras dos feminicídios.

Relata repetidamente que foi abusada aos seis anos porque nunca tinha visto um pênis e, assim, não entendia o que a feria. Por isso mesmo - ops! - defende que figuras, ilustrações e fotos do temido pênis não deveriam ser exibidos para ninguém antes da adolescência.

Para ela, a imagem do órgão sexual masculino - parte essencial do corpo de papai, titio, vovô, irmãos e até do Papai Noel - configura "erotização infantil". Justamente o que seu presidente, Jair Messias, quer evitar, justifica. Desentende que, talvez, se tivesse sido apresentada ainda na infância ao tal do pênis tivesse maior chance de, ao vê-lo, ligar o nome à pessoa.

Dona Damares é uma das duas ministras que o capitão-presidente garante: Valem por 20.

Fugiu ele da aula, perdeu a apostila, rasgou as cartilhas. Assim não percebeu que as mulheres lutam para ser 10, valendo 10, em ministérios de 20. Menos que isso é prosa de almanaque antigo, sem figurinhas de pênis.

JM - que se enxerga mais Messias do que Jair - não perde a chance de perpetrar estultices em rede social. Uma, atrás da outra. Uma pior que a outra. Ganhou com ilusionismos, segue insistindo no papel e CiberMandrake. Em 68 dias de mandato, disparou 149 declarações duvidosas - 82 completamente falsas. 1,4 por dia.

De saia justa em saia justa, vai ficando difícil a continência dos generais para a incontinência verbal do capitão-presidente.

E assim celebramos mais um março - mês da mulher. Este com a carga pesada do crescimento de assassinatos de mulheres e uma alegria. A vitória da Mangueira atrevida e corajosa, que levou pra avenida desditas do faz de conta nacional. O sorriso de Marielle estampado em bandeiras verde e rosa fechou o desfile.

Fez lembrar também o ano passado do assassinato da vereadora carioca e do motorista Anderson - sem culpados.

Nas ruas, o povo cantou impropérios ao Jair que insiste em não trocar o computador pela cadeira de presidente. Messias, aos costumes, respondeu com um porno vídeo, disponível a todos - crianças inclusive.

O Carnaval fechou com o Queiroz sumido, o laranjal do PSL crescendo, milícias miliciando e uns bilhões do dinheiro devolvido pela Petrobrás preparadinhos pra cair na conta de uma tal Fundação Lava Jato, criada pelo Ministério Publico, que, parece, confunde independência com liberdade para assumir o 4º Poder da República.

Tudo junto e misturado dá corpo aos versos do belo samba da Mangueira: "Meu nego, deixa eu lhe contar a história que a História não conta, o avesso do mesmo lugar".

Tânia Fusco é jornalista