O EXÉRCITO NÃO É BLOCO DE CARNAVAL - ELIO GASPARI

14/01/2018

FONTE - O GLOBO, RJ

O Exército não é bloco de carnaval

Crivella demonstrou não entender o feriado e a função das Forças Armadas

O prefeito Marcelo Crivella apelou ao governo federal para que mande uma tropa para garantir a segurança do carnaval do Rio e comparou a situação com a da Olimpíada, quando o Exército colaborou com a ordem do evento. O doutor não sabe o que é o carnaval, não entendeu o que foi a Olimpíada e não aprendeu para o que servem as Forças Armadas. Ou sabe tudo isso e, jogando para a plateia, pediu algo que não pode ser dado, protegendo-se. Afinal, num esgarçamento das regras da federação, governadores não equipam suas polícias, atrasam salários e, quando a porca torce o rabo, chamam as forças federais.

Como ensinava o general Leônidas Pires Gonçalves, o chefe militar que fechou o ciclo de anarquia militar do século passado, "quartel não tem algemas". Soldados não são formados para prender cidadãos. Podem vir a fazê-lo, pontualmente, em casos de manutenção da ordem, mas para isso os estados (e o Rio) têm polícias Militar, Civil e municipal.

Pedir tropa para o carnaval é algo estapafúrdio como pedir carnaval sem bebida. O soldado, que está no quartel porque o serviço militar é obrigatório, guarnece uma esquina, um bêbado sai do bar e resolve azucriná-lo, a situação se descontrola e o jovem atira. No dia seguinte os jornais noticiarão: "Soldado mata estudante que saiu do baile".

Pedido semelhante ao do prefeito foi feito há um ano pelo governador Pezão e, discretamente, mostraram-lhe a impropriedade da ideia. O carnaval veio e se foi, com sua rotina.

A anarquia federativa, com os governos estaduais criando problemas na expectativa de que a União mande tropas é um falso subproduto de um dispositivo constitucional. Temer não poderia decretar intervenção federal no Rio ou onde quer que seja porque a lei manda que não se mexa na Constituição enquanto houver estados ou municípios sob intervenção. Há décadas Brasília sabe que reformas como a de Previdência não podem ser promulgadas havendo intervenções. Isso não significa que não possam tramitar. No caso, se um governo está numa situação de calamidade que requeira um interventor federal, ela pode ser decretada e nada acontecerá com a tramitação da reforma na Câmara, de onde deverá ser mandada ao Senado.

Isso pode atrasar a reforma em alguns meses, mas ajudará a limpar administrações ruinosas antes da eleição de outubro.

Trumpistão doido

Com jeito de quem não queria nada, Donald Trump perguntou aos presidentes latino-americanos com que jantava em setembro passado se eles não pensavam em intervir militarmente na Venezuela. (Pelo que se sabe hoje, quando Trump pergunta alguma coisa com jeito de quem não quer nada, não sabe o que quer.)

Tomou um bem educado chega prá lá.

Trumpistão chique

Jornalistas não gostam de constranger colegas poderosos. Com toda a barulheira provocada pelo livro "Fogo e fúria", de Michael Wolff, passou despercebida a informação de que Anna Wintour, a temível editora da revista "Vogue", foi discretamente à Trump Tower para um encontro com o então presidente eleito dos Estados Unidos. Ela cabalava a sua nomeação para embaixadora em Londres. Quase rolou.

La Wintour tentou a nomeação durante o governo de Barack Obama. Mas apesar da boa relação que tinha com a mulher do presidente, não conseguiu o prêmio.

Chique e talentosa, Wintour é a personagem central do filme "O diabo veste Prada", com Meryl Streep.

Ainda sobre Wolff: ele deu um magnífico chapéu nos seus críticos. Começou o livro com um minucioso relato de um jantar de seis pessoas, no Greenwich Village, ocorrido no dia 4 de janeiro de 2017, pouco antes da posse de Trump.

O tiro veio logo: como é que ele podia reproduzir as conversas com tamanha exatidão?

Era uma armadilha para pegar quem estava predisposto a duvidar de suas narrativas. O jantar aconteceu na casa de Wolff.

A Embrapa fez de uma crítica um barraco

O presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, transformou uma controvérsia criada por uma crítica de um pesquisador da sacrossanta estatal num barraco típico das manifestações autoritárias que envenenam a gestão de centros de pesquisa e da academia.

Há uma semana, o pesquisador Zander Navarro escreveu um artigo intitulado "Embrapa, acorde", criticando a forma como vem sendo gerida a empresa. A Embrapa tem 10 mil empregados e custa US$ 1 bilhão anuais à Viúva.

Primeiro a estatal respondeu genérica e educadamente ao artigo e, pouco depois, Zander foi demitido. Ele era um crítico costumeiro da administração da Embrapa. Até aí estava-se em mais uma briga de acadêmicos da burocracia federal.

O presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, resolveu entrar no assunto e o fez da pior maneira possível. Juntou o autoritarismo dos mandarins com a invulnerabilidade que as redes internas parecem oferecer aos seus participantes. Numa mensagem restrita à cúpula da empresa, disse que tomaria providências para que "esse tipo de comportamento, irresponsável e destrutivo, seja definitivamente erradicado da nossa empresa".

Linguagem de fabricante de pesticida.

Erro

Estava incompleta a informação publicada aqui de que Temer tem dois ex-ministros na cadeia (Geddel Vieira Lima e Henrique Alves), mais o filho de um ex-detento (Helder Barbalho, na Integração Nacional) e quer colocar Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, no Ministério do Trabalho.

Faltou mencionar Leonardo Picciani, ministro do Esporte e filho do Dom Jorge, vice-rei do PMDB do Rio.

Todo presos por corrupção.

Tamanha taxa de aliados na tranca é coisa inédita no mundo.

Vaquinhas

Quem for ao site Vakinhas, verá que as coisas boas também acontecem. Há um ano, seis estudantes do ensino médio do Rio precisavam de ajuda para participar, nos Estados Unidos, do torneio de matemática da universidade Harvard e do Massachusetts Institute of Technology. Conseguiram R$ 44 mil, embarcaram e tiraram a primeira colocação entre os latino-americanos.

Agora, no mesmo Vakinhas, as equipes precisando de ajuda são três. A do ano passado, novamente selecionada, precisando de R$ 44 mil, e mais duas. Noutra, de Goiás, quatro garotos precisam de R$ 33 mil. A terceira equipe, pernambucana, precisa apenas de R$ 3.600, pois o governo do estado bancou as passagens, o sindicato das seguradoras cobriu a hospedagem e a agência de turismo Griffe pagou os vistos.

Quem buscar "Harvard estudantes" no Vakinhas saberá também que Letícia Braga Siqueira, quartanista de Medicina na USP, foi aceita para um estágio de um ano na Harvard Medical School. Ela trabalhará num laboratório de neurologia para recém-nascidos e precisa de R$ 42 mil até dia 20.

Sua história está lá, de graça.