O PRAZER DE GILDA E O NOSSO - LEANDRO KARNAL

25/02/2018

No filme, Rita Hayworth fuma com sensualidade devastadora, mas devia tossir sozinha à noite

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo


Nunca fumei. Em parte, isso nasceu do exemplo doméstico oferecido por minha mãe, que por mais de meio século usou cigarros em casa. Nós cinco (os 4 filhos e o marido) abominávamos o hábito. Ela parou, obrigada pelo enfisema. Seu coração e seu sistema respiratório foram marcados para sempre. Talvez ainda estivesse entre nós, se tivesse evitado o vício.

Quando eu era jovem, o cigarro era rebeldia, autonomia, masculinidade e um gesto de desafio. Quase sempre proibido nas escolas, fumar era um manifesto anárquico contra o poder. Na USP, alguns dos meus professores fumavam em sala de aula. Quando dei aulas na PUC-SP, interditei o cigarro em classe porque eu não conseguia falar com a neblina formada. Causou estranheza meu gesto.

Na década de 1980, surgiu uma tendência à geração saúde, muitos abandonavam o cigarro e buscavam uma vida mais saudável. Depois, em algum momento que não consigo precisar, mais gente voltou a fumar. O cigarro parece crescer entre classes menos favorecidas. Também é forte no Terceiro Mundo. Eu estava na Europa quando começaram a interditar bares ao vício. Na China, o cigarro é mais soberano do que nos Estados Unidos.

Fui de Varig para o Velho Mundo algumas vezes, em voos longos, com metade do avião fumando. Chegávamos fedendo por todos os poros e, para aumentar a desgraça, na época, eu ainda tinha cabelo. Curiosamente, isso não causava rebeldia entre as pessoas. Lá pegávamos trens escolhendo entre cabines de fumantes e não fumantes. Faz pouco tempo, mas parecem recordações do Paleolítico Inferior.

A cena de Rita Hayworth no filme Gilda (1946) é bem conhecida. Rita/Gilda fuma com uma sensualidade devastadora. Provoca vontade de possuí-la com cigarro e tudo. Há um filme que retrata quase a mesma época: Boa Noite, e Boa Sorte (2005). Na obra, os apresentadores de telejornal tragavam fumaça enquanto falam das notícias. É incrível imaginar isso! Alguém concebe meu amigo Willian Corrêa dando uma pitada diante das câmeras? Impossível conceber. Houve uma revolução visual e de costumes.

Estive em um jantar em Londres e vivi uma experiência que não experimentava havia anos. Fumava-se desbragadamente no apartamento, com as janelas fechadas e lacradas pelo inverno. A fumaça ia ocupando tudo e eu já não via a cabeça dos convivas mais altos. Eu lacrimejava, perdi o paladar para o vinho e saí apressadamente. No táxi, tive vontade de jogar a roupa fora na rua, pois tudo recendia a tabaco. Note-se: eu nunca fui da esquadrilha antifumo que se perturba emocionalmente com o cigarro alheio. Porém, fazia tempo que eu não era submetido a uma casa-cinzeiro.

Doutor Drauzio Varella tem razão. A indústria do fumo usa de todos os recursos para manter o fumante ligado aos grilhões lucrativos. Surgem sabores e outros malabarismos para que os mais jovens façam a adesão ao vício. A questão chegou ao Supremo Tribunal Federal! O cigarro mentolado ocupou o tempo dos ministros da egrégia corte. Bem, todos morreremos, mas morrer sem ar e querendo respirar é algo que presenciei e é horrível.

O cigarro não é ilegal. Causa enormes males, como muitos alimentos, refrigerantes e produtos vendidos com notas fiscais à luz do dia em pontos públicos. Diferentemente de um alimento gorduroso, o mal do cigarro atinge pessoas ao meu redor. Posso decidir morrer entupido de bacon, porém é algo do meu universo interior que não afetará ninguém. O cigarro ataca o próximo.

O fumante é um tipo específico de kamikaze. Todos somos quando tomamos decisões de potencial deletério. Viver é morrer em prestações diárias. Cada comida errada, cada velocidade excedida no carro, cada porre e cada tragada é uma folha do carnê da vida que quitamos e que nos aproxima da plataforma sem retorno. Quando a pessoa fuma, sua fumaça traz luz a esse grande outro coletivo de rejeição do viver. Isso causa raiva. Afinal, ele acelera um processo em mim que só eu tenho o direito de açodar do meu jeito. O fumante escancara o que preferimos ocultar.

Tenho um olhar de compaixão ambígua observando o desespero dos viciados ao final de voos longos. Também há algo de estranho nas pessoas que, em pleno inverno europeu, ficam na rua fumando em meio ao frio terrível, isoladas, olhando para o chão com melancolia. Há uma pulsão de morte no fumante, no prazer-veneno da nicotina que o destrói e que ele ama. Há uma Gilda reprimida em mim e uma Gilda solta no fumante.

Em época na qual nada havia de condenação ao cigarro, o grande Augusto dos Anjos podia poetar: "Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja". O objetivo do poeta paraibano era outro, mas imagino que Gilda devia tossir sozinha à noite, sem glamour. Bom domingo para todos nós!