O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO, MAS O POVINHO... - O GLOBO

05/02/2018

POR GISELLE OUCHANA / SELMA SCHMITT

05/02/2018 4:30

RIO - O recorde de ocupação dos hotéis tem se tornado frequente no Rio durante eventos como carnaval e réveillon. O empenho mostrado ao atrair os turistas, no entanto, não é o mesmo que se vê na hora de receber os visitantes. E é nos principais cartões-postais que a cidade tem se mostrado uma péssima anfitriã. Nem mesmo o encanto pelas lindas paisagens consegue superar a invasão de ambulantes e o assédio de flanelinhas.

DESORDEM EM CARTÕES-POSTAIS DO RIO

Nos acessos ao Corcovado, por exemplo, um dos destinos mais procurados por turistas, vagas de estacionamento são oferecidas a R$ 50 por guardadores clandestinos e funcionários terceirizados da empresa que faz o receptivo no ponto turístico. Em Copacabana, outro cenário presente na lista de quem vem ao Rio, um camelódromo cobre o charme das pedras portuguesas do calçadão reconhecido mundialmente.

No início da tarde da última terça-feira chovia muito, e o movimento no Corcovado era pequeno. Nas Paineiras, uma equipe do GLOBO chega de carro à área de embarque e desembarque para táxis e veículos particulares e de turismo. A partir daquele ponto, só é possível seguir em vans da concessionária Paineiras-Corcovado, autorizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Um operador de trânsito uniformizado se aproxima e oferece vaga por R$ 20 perto dali, sem limite de tempo. Questionado se o estacionamento era regular e se não havia risco de multa, respondeu com firmeza: "Somos nós que comandamos aqui".

"CARONA" DE MOTO POR R$ 20

Nas Paineiras, mototaxistas também ditam regras e cobram R$ 20 para "dar carona" a motoristas que estacionam longe do ponto de embarque das vans. Na região, também há carros particulares oferecendo transporte, apesar de esse tipo de serviço ser proibido. Uma corrida do Corcovado a Copacabana custa R$ 70. A desordem na região é tanta que um operador de trânsito cobrou R$ 50 para permitir o desembarque de um turista chileno cadeirante, numa área onde ele tinha autorização para descer do carro. A mulher do estrangeiro gritou, indignada:

- Isso é uma vergonha para a cidade.

No acesso ao Trem do Corcovado, a falta de controle é a mesma. Flanelinhas cobram R$ 30 por vagas de estacionamento, e ambulantes abordam turistas livremente, vendendo suvenires, como placa de carro decorativa, por até R$ 40. Para cariocas, o adereço custa a metade.

Em Copacabana, principal área hoteleira da cidade, os camelôs proliferam. Ao anoitecer, colocam suas mercadorias dos dois lados do calçadão da orla, formando um corredor e deixando turistas e cariocas sem espaço para caminhar, principalmente entre as ruas Xavier da Silveira e Barão de Ipanema. Eles vendem de tudo, de churrasquinho a acessórios para animais.

- Estive aqui há cinco anos, e a situação era bem diferente. A quantidade de vendedor na calçada me surpreendeu - disse a paulista Georgina Siqueira.

Presidente da Associação de Moradores de Copacabana (Amacopa), Tony Teixeira diz que já reclamou do problema na prefeitura, em dezembro:

- No principal palco do Brasil, você esbarra com uma porção gigantesca de pessoas vendendo coisas de um lado a outro. Fica muito desorganizado, rude e dá uma visão total de terceiro mundo.

Os ambulantes explicam que o trabalho nas ruas é um reflexo da crise.

- Muitos ficaram desempregados, e esse é o nosso ganha-pão - diz uma vendedora, que pediu para não ser identificada, acrescentando que até os camelôs são vítimas da desordem na orla. - Já fui assaltada. Levaram minha bolsinha com R$ 300.

A falta de fiscalização também transformou o Centro do Rio em território livre para irregularidades. Na Lapa, a Escadaria Selarón, muito procurada por turistas, está tomada de ambulantes que vendem de suvenir a caipirinha. Na Praça Mauá, em frente ao Museu do Amanhã, a quantidade de carrocinhas também é grande. Muitos transportam suas mercadorias em triciclos e, assim, percorrem toda a Orla Conde oferecendo seus produtos, sem fiscalização. Nos arredores do Museu de Arte Moderna (MAM), no Aterro, além de ambulantes, cinco homens lavam carros na rua, sem serem importunados.

No entorno do Pão de Açúcar, as vagas de estacionamento têm sido ocupadas por carros que vendem quentinhas e lanches. Na hora do almoço tem até fila de espera. Os chilenos Alejandro Hernandez e Loreto Marcondes, que optaram pelo milho cozido, não se importaram com a bagunça no cartão-postal.

- Lá no Chile também tem muito disso - afirma Alejandro.

A desordem e a falta de fiscalização no entorno de pontos turísticos preocupam o presidente da Associação de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes. Para ele, a cidade vive um momento de "balbúrdia e descontrole":

- Necessitamos de líderes que coloquem ordem na casa. Crise não é desculpa para "oferecer" o espaço público. Além da desordem, a cidade ainda está enfrentando problemas de segurança e a febre amarela. Apesar de tudo isso, o Rio parece inoxidável. No carnaval, devemos bater 90% de ocupação dos hotéis na Zona Sul, e 85% na Barra.

'CIDADE VIVE UMA CRISE'

Presidente da Associação de Agentes de Viagem do Rio (Abav-RJ), Cristina Fritsch diz que a desordem só faz aumentar:

- É lamentável que os turistas encontrem esta situação.

Questionada sobre os problemas encontrados no Cristo Redentor, a concessionária Paineiras-Corcovado informou, por e-mail, que adotará "medidas rigorosas para coibir" as irregularidades e que a empresa terceirizada que presta o serviço deverá ser substituída. A empresa alega que "não tem poder de polícia ou fiscalizador para combater práticas de estacionamento e transporte irregulares". Apesar das irregularidades encontradas pela reportagem, a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) afirma que a prefeitura e polícia fizeram operação no local no dia 25 de janeiro, e uma nova ação está sendo programada para a região. Sobre os mototáxis, a Secretaria municipal de Transportes diz que o serviço está sendo implementado, e só quem recebeu uma carteirinha na gestão passada pode atuar no local.

A Seop informou ainda que as ações para coibir o comércio ambulante irregular em Copacabana estão inseridas na operação Rio + Seguro, projeto que associa planejamento, inteligência e tecnologia na prevenção à desordem urbana e aos pequenos delitos.

Presidente da Riotur, Marcelo Alves ressalta que há sinergia entre a empresa e a Guarda Municipal para o combate as irregularidades:

- A cidade vive uma crise econômica muito grande. As pessoas recorrem ao comércio ilegal para sobreviver. A Guarda Municipal tenta coibir ao máximo, dentro do efetivo que ela tem.