ONDE ESTÁ O PODER - HELENA CHAGAS

11/07/2019

Onde está o poder

Rodrigo Maia x Bolsonaro

Por Helena Chagas     BLOG EM VEJA.COM - 11 07 19 12,00 HRS.

A aprovação da reforma da Previdência não terá impacto imediato na economia e no dia-a-dia das pessoas. Mas a mudança na embocadura das pesquisas, apontando que agora mais da metade da população aceita as mudanças na aposentadoria, junto à previsível euforia do mercado, vão provocar cotoveladas entre políticos da centro-direita na disputa pela paternidade da reforma. Sem inibições. O embate mais interessante de acompanhar será Jair Bolsonaro x Rodrigo Maia.

O presidente da República, na verdade, atrapalhou o quanto pode as negociações da reforma que ele mesmo enviou ao Congresso. Das declarações inconvenientes de ex-sindicalista militar durante todo o processo ao gesto final de adotar a reivindicação dos policiais por um sistema privilegiado de aposentadoria, Bolsonaro deixou clara sua pouca simpatia pelo projeto de Paulo Guedes.

Essa situação foi agravada pela total incapacidade do Planalto de construir uma base parlamentar no Congresso e pela falta de traquejo do próprio ministro da Economia, que saudou a façanha que foi aprovação do projeto na comissão especial com uma saraivada de criticas incompreensíveis. Sem mencionar o espantoso e agressivo discurso governista para pressionar o Congresso e seus caciques nas redes.

Reforma aprovada, porém, tudo muda. O governo deve agarrar a vitória - sem dúvida nenhuma, muito grande - com unhas e dentes. Assim como no acordo Mercosul-União Européia, trabalhado ao longo de vinte anos por seus antecessores e, afinal, assinado por ele, Jair Bolsonaro inscreverá na linha de tempo de seu mandato a aprovação da reforma da Previdência de 2019 - que, se não representou uma salvação da lavoura, afastou o país da insolvência fiscal que o ameaçava.

É possível, portanto, esperar um tremendo oba-oba no Planalto festejando a aprovação da reforma na Câmara, ainda que ela não tenha sido concluída. Seguindo o velho ditado segundo o qual "a vitória é minha, o empate é nosso, a derrota é sua", Bolsonaro e sua trupe vão tentar usar o feito para neutralizar as críticas ao despreparo do governo e até virar a tendência de queda da popularidade presidencial nas pesquisas.

Essa estratégia, porém, deve esbarrar numa muralha: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, seus aliados, notadamente o Centrão, e até o Legislativo como instituição. Todo mundo sabe que Maia foi o principal articulador da reforma. Aglutinou um grupo de deputados e partidos - que conseguiu recompensas como a liberação de emendas parlamentares em troca do voto - mas que, nesses seis meses, não estabeleceu qualquer ligação mais estreita com o governo de Jair Bolsonaro.

Sem Maia e o arranjo de forças que lhe dá sustentação na Câmara não haveria reforma, assim como ela não será concluída sem a correspondente aliança de viés de centro e de direita no Senado. Da mesma forma, está nas mãos do Legislativo e de seus comandantes a pauta do que virá - ou do que não virá.

Por mais que Bolsonaro e Guedes comemorem, a aprovação da reforma da Previdência não deixará mais qualquer dúvida sobre onde está o poder de verdade em Brasília.

Helena Chagas é jornalista