OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS? - BRUNO BOGHOSSIAN

12/06/2019

Caso Moro deflagra operação para chancelar erros da Lava Jato

Alguns têm pressa para defender vale-tudo, mas combate à corrupção não autoriza abuso

  • FONTE - FOLHA DE SP 

A evidente colaboração entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol deveria ser suficiente para jogar ao menos um ponto de interrogação nas cabeças dos mais firmes defensores da dupla de Curitiba. Em vez disso, parece estar de pé uma operação para endossar até métodos de vale-tudo adotados pela Lava Jato.

As conversas que mostram um juiz discutindo táticas de acusação e apresentando uma testemunha contra os acusados são corrosivas. As implicações desses fatos e do acesso ilegal a conversas privadas ainda serão discutidas, mas alguns atores conferem uma chancela prematura a atropelos da lei e da ética jurídica.

No Supremo, Luís Roberto Barroso afirmou que a troca de mensagensdivulgada pelo site The Intercept Brasil será apurada, mas se antecipou. "A corrupção existiu e precisa continuar a ser enfrentada, como vinha sendo", disse, em entrevista à GloboNews. "Tenho dificuldade em entender a euforia que tomou os corruptos e seus parceiros."

O ministro poderia ter separado os elementos, já que a existência da corrupção não autoriza ninguém a transgredir limites. Para piorar, ele insinua que o caso só interessa mesmo a criminosos e seus aliados.

Moro fará uma dobradinha afinada com Barroso se for indicado por Jair Bolsonaro para o STF. O ex-juiz afirmou não ver "nada de mais" nos diálogos. Em uma das conversas publicadas, ele disse a Dallagnol que não se arrependia de ter divulgado a gravação, feita ilegalmente, de uma conversa entre Lula e Dilma Rousseff, às vésperas do impeachment.

A defesa dos excessos perde ainda mais substância quando ganha tintas políticas. Onyx Lorenzoni tentou proteger Moro sob o argumento de que ele "ajudou a salvar o Brasil do projeto doente do PT". O ministro da Casa Civil é aquele que admitiu ter recebido doação via caixa dois e foi perdoado pelo implacável ex-juiz.

O entendimento de que o combate à corrupção justifica o desrespeito a algumas regras pode fazer muito sucesso nas ruas, mas não deveria passar das portas dos gabinetes.

Bruno Boghossian

Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

MEU COMENTÁRIO:

Creio estarmos perante mais uma situação em que devamos indagar e  responder à clássica pergunta: os fins justificam os meios?

A Lava Jato é considerada uma das mais bem sucedidas operações de combate à corrupção institucionalizada por analistas de todo o mundo, não apenas do Brasil. 

Sabe-se que o mal é universal. O Brasil não tem o privilégio do mal feito, basta ler jornais e ser relativamente bem informado para se certificar da assertiva. 

Acabo de assistir na tv um filme americano ("Armas na mesa", disponível no Now da Net), onde a questão da venda e posse livre de armas na sociedade americana é posta à prova, na luta entre o direito individual e o direito da sociedade em se proteger dos desvarios dos que usam a liberdade armada  para atentados que vitimam inocentes.  

Merece ser visto pois como pano de fundo, aparece toda a sordidez da política e dos jogos de interesse dos grandes grupos que, lá como cá, tentam manter sua prevalência nas grandes decisões. Até por que estamos em vias de abrirmos a mesma discussão cá na rincão. 

Voltando ao tema, sabe-se que as prisões e condenações dos corruptos, especialmente os incrustados na Petrobrás, só chegou a bom termo por delações, escutas clandestinas ou autorizadas, e muita diligência dos procuradores e investigadores envolvidos na operação. 

A dúvida é: se fossem respeitados todos os limites éticos e processuais, teríamos chegado ao mesmo resultado?

Valeria para a defesa o mesmo argumento ou esta seria execrada pelo uso e abuso de meios ilícitos para defesa dos réus?

Enfim, mantém-se a dúvida: os fins (ataque frontal às fontes da corrupção e seus personagens), justificam que mesmo infringindo a ética, vale pela intenção e seus resultados?

Quem grita contra agora pela mídia, tem razão em bradar ou até que ponto defendem os interesses dos grupos prejudicados?

Quantos integrantes da Câmara e do Senado têm "rabo de palha" extenso o suficiente para queimar o filme de Sergio Moro e dos procuradores?

Vamos ter que mastigar bem mastigado antes de engolir...