OS MAIS VENDIDOS EM FAVELÂNDIA - MARIO SERGIO CONTI

24/02/2018

Em festa de raro esplendor, Aécio Montecchio, da Casa das Coxinhas, flerta com Gleisi Capuleto, da Mortadela

  • FONTE - FOLHA DE SP 
  • 1º "Tira Esse Trem Daí, Sô". Sessenta anos depois da grande derrama de tutu, enfim se revela quem montou e pagou o lobby que convenceu os brasileiros (tolinhos!) que era uma boa criar a indústria automobilística, em detrimento de metrôs e ferrovias. Prefácio póstumo de JK.

    2º "Cidade de Deus 2". Elsinho Maluco, Marcola e Micha Dedos Leves chefiam milícias e bondes do tráfico que disputam bocas de fumo no Rio. Disputam também mercado e poder Favelândia afora.

    3º "Empreitada Empreendedora". Sessenta anos depois do vasto vazamento de tutu, se faz jus ao denodo da burguesia bugra em comprar o Estado e persuadir os brasileiros (bobocas!) a levar a capital para Goiás. Posfácio vivaldino de Niemeyer.

    4º "Odalisca na Estrada de Damasco". Tudo, mas tudo mesmo, em minúcias de eriçar os pelos da nuca, sobre a conversão de Crivella à esbórnia momesca. A bandalheira começa na epígrafe: "A fé é a crença ilógica na ocorrência do impossível".

    5º "Varões de Pinda". À la Plutarco, as vidas paralelas de Alckmin e seu cunhado Adhemar Ribeiro, de quem a Odebrecht diz ter molhado a mão com R$ 10 milhões, boa parte em espécie. Cobiça cívica, carolice sacripanta e marquetagem da caipirice pontuam a parábola. Prefácio, à luz da teoria da dependência, de FHC.

    6º "Rainha Lira". Paródia patusca de "Rei Lear". A soberana reparte o reino entre Austéria, a filha neoliberal que come abelha, Glorinha, a progressista com casa em Miami, e Valentina, uma pobre diaba socialista que quer ver o povo de cabeça erguida. Posfácio fora do lugar de Roberto Schwarz.

    7º "Boa Noite, Cinderela". Com exaltada pungência, é posta a nu a perfídia lulopetista -que rasgou, jogou no chão e sapateou nos ideais que pulsam no colo alabastrino de Marta Suplicy. Palitando os dentes num corcel ebúrneo, Sir Michel rapta a donzela feminista e a deita, deleitada, num leito de pétalas peemedebista.

    8º "Zona de Conforto". História em quadrinhos na qual o Incrível Huck ressignifica "mundo cão" para "amor ao próximo", ao qual se dedica de corpo e alma em benefício próprio. No fim, salva o Brasil de si mesmo.

    9º "Desculpe Qualquer Coisa: A História do PT". A organização interna do partido explica a submissão aos usos e costumes da alta roda papa-obras? Por que foi escassa a resistência à promiscuidade? Era, é, possível chegar ao Planalto sem apodrecer? Ou bem se responde ou não se vai adiante.

    10º "Os Amantes de Verona". Aécio Montecchio, da Casa das Coxinhas, flerta numa festa de raro es-plendor com Gleisi Capuleto, da Casa da Mortadela. A orquestra toca valsas dolentes, ele a toma nos braços e saem dançando, ambos silentes. "Suicidar-se-ão?" indaga-se Mercúcio Temer, e roga uma praga: "Que a Lava Jato devaste as duas casas!".

    11º "Anais Sino-Bolivarianos". A Academia Itamarateca de Etiqueta, dirigida pelo chofer de Marighella, elucida por que a Venezuela é uma ditadura que esguicha sangue e a China, uma democracia bonachã.

    12º "Novo Medalhão". Casmurrinho herda bangalôs na Europa, França e Bahia, lavras de nióbio, incubadora de eventos, casa bancária e 111 mil servos. Cria instituto de boas maneiras, lota um estábulo com matemáticos -e se diz só um cara de classe média que gosta de picadinho. Escrito com o teclado da galhofa e o iPhone da melancolia.

    13º "Meu Rei". Tesouro legado à nação pelo homem de propaganda Júlio Ribeiro. São 999 páginas que exaltam a titânica modéstia de Nizan Guanaes, o melhor publicitário do mundo de si próprio.

    14º "Educação pela Pedra". Analogia entre casas e livros, via João Cabral: livros são casas amplas de janelas e portas abertas, por onde passa o pensar claro, livre. Mas a hora é de muros. Onde vidro, concreto. Onde tomos, tuítes. Onde vãos de abrir, opacos de fechar. Onde livros, resumos.

    Mario Sergio Conti

    Autor de 'Notícias do Planalto', obra que dissecou as relações entre a Presidência de Fernando Collor e a imprensa, começou sua trajetória como jornalista na Folha em 1977. 

MEU COMENTÁRIO:
Frisei em itálico o primeiro da série, porque faço parte  inteiramente da legião de tolos que acharam um grande negócio priorizar a indústria automobilística (e estradas, pontes, viadutos, pedágios, empreiteiras,propinas,  etc), em prejuizo de metrôs e ferrovias. 

Hoje somos um país sobre pneus, sem estradas decentes e ruas idem, para abrigar todos os carros novos que a indústria despeja anualmente. 

O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, numa entrevista sobre o privilégio dos carros em relação ao resto, frisou que por mais espaço que concedamos a eles, carros, nunca será suficiente: sempre teremos que conceder mais, e mais, e mais..., mais ruas, mais avenidas, mais viadutos, mais empreiteiras, mais propinas, e por aí vai...

O prefácio  póstumo de JK é oportuníssimo, porque com ele e sua Brasília foi que tudo começou para ficar no que hoje está: uma ilha de fantasia plantada em meio do nada, habitada por políticos e sua entourage de servidores públicos bem remunerados. 

Enquanto isso, a Transamazônica, iniciada pelos milicos e nunca terminada, continua sendo um atoleiro dos caminhões que deveriam levar a soja do centro-oeste aos portos. 

Ah, existe uma tal de ferrovia Norte-Sul que deveria estar pronta e operando, porém... Bem, Vs. sabem o resto.