"PEQUENA GRANDE VIDA: - REDUZA SUAS EXPECTATIVAS - ISABELA BOSCOV

23/02/2018

Filme com Matt Damon parte de uma ótima sacada, mas atola no lugar-comum

Por Isabela Boscov - FONTE - BLOG EM VEJA.COM 

Os cientistas noruegueses que desenvolveram o processo de miniaturização de seres humanos acham que, em 200 ou 300 anos, a transição para uma micro-humanidade estará completa, e aí o mundo poderá respirar aliviado: se uma família põe na rua um saco de lixo por dia, uma comunidade de homens e mulheres diminutos demora bem uns três anos para produzir a mesma quantidade de dejetos.

 A demanda por alimento, energia, combustível, água e matéria-prima será reduzida para uma fração infinitesimal, e pronto: a ameaça de extinção dos humanos, do planeta ou de ambos estará afastada. A parte difícil da coisa é, claro, reorganizar a vida a 1m75 para uma existência a 12 centímetros. Mas Paul (Matt Damon) e sua mulher, Audrey (Kristen Wiig), se entusiasmam com a ideia porque, nas comunidades de minúsculos, a mixaria que eles têm no banco vira uma fortuna de milhões de dólares: é passar o resto da vida numa mansão, de papo para o ar e pés na piscina, e nunca mais pensar nas contas do final do mês. 

Os amigos que já se reduziram - e que comparecem às festas da turma transportados em caixinhas - dizem que é a melhor coisa que eles poderiam ter feito. Pequena Grande Vida, enfim, começa muito bem: o diretor Alexander Payne, de excelentes sátiras tragicômicas da vida americana como Eleição, Ruth em Questão, As Confissões de Schmidt e Nebraska, e de filmes menos atilados mas muito simpáticos como Sideways e Os Descendentes, parte aqui de uma sacada de possibilidades ilimitadas, inclusive no que diz respeito ao visual.

 É um deleite, na primeira parte de Pequena Grande Vida, acompanhar as tiradas imaginadas por Payne e seu corroteirista Jim Taylor (já inventaram vaquinhas e cavalinhos, por exemplo, mas levar flores para o anfitrião de uma festa ainda é coisa para gente muito forte) - tantas e tão inspiradas que tenho a tentação de dizer que, por si sós, elas já valeriam o filme.

Pena que não, não valem: da metade em diante, Payne pouco a pouco escorrega para o sentimentalismo batido, e então se atola nele. Lazerlândia, a comunidade em que Paul se instala (sua mulher desiste de virar minúscula, mortificada, quando lhe raspam a primeira sobrancelha - o que eu entendo perfeitamente), é uma espécie de nano-Disney da vida mansa, mas com mais álcool e balada. 

É claro, porém, que para alguns não fazerem nada, outros têm de trabalhar duro etc. etc. etc. De forma que Paul, depenado por Audrey no processo de divórcio, vai entrar em contato com o outro lado desse micromundo, onde imigrantes ilegais, refugiados e descamisados se espremem em apartamentinhos horríveis dentro de contêiners escuros, e perdem horas no transporte público todos os dias para ir limpar as casas dos ricos e desocupados ou cuidar de seus jardinzinhos.

Como teoria sócio-econômica, é de um simplismo que vem atrasado em pelo menos um século. Imperdoável mesmo, no entanto, é a pieguice. O abrir de olhos de Paul é provocado pela asilada política Ngoc, uma militante de algum regime ditatorial do Sudeste asiático que perdeu uma perna ao ser clandestinamente despachada numa caixa de televisão e virou faxineira, além de alma caridosa do seu contêiner. Hong Chau é uma ótima atriz, mas é impossível ser convicente com tal quantidade de caricaturas reunida numa só personagem (a quem quiser uma demonstração de como ainda se pode fazer isso do jeito certo, recomendo o lindo Eu, Daniel Blake, do inglês Ken Loach, que está na Netflix).

 E a guinada do último ato, em que Ngoc, Paul e seu amigo eurobrega Dusan (Christoph Waltz, o bem-vindo limão em meio a tanto melaço) visitam a minicomunidade original, na Noruega, e caem no meio de um delírio de fim do mundo, é espantosamente mal preparada pelo roteiro. A sensação é de que a primeira metade de Pequena Grande Vida só existe para que Payne possa contrabandear para o filme a mensagem simplista da segunda metade - tão repleta de clichês que tem até uma versão daquela velha cena do casal que decide ficar junto no segundo antes de ele/ela embarcar no avião que vai levá-lo(a) para longe. 

Uma grande ideia, enfim, tornada minúscula.