QUANDO UM ESCÂNDALO REABILITA OUTRO

06/01/2018

Análise: Quando um escândalo reabilita o outro no governo Temer

Mensaleiros ganham protagonismo com instabilidade da base parlamentar de Temer

POR MARIA LIMA E PATRÍCIA CAGNI

FONTE - O GLOBO, RJ

BRASÍLIA - Refém de votos no Congresso para aprovar as reformas e enterrar as duas denúncias da Procuradoria Geral da República (PGR) que poderiam lhe custar o mandato, o presidente Michel Temer acabou dando protagonismo a ex-condenados no escândalo do mensalão. O caso mais emblemático foi o do presidente do PTB, Roberto Jefferson, denunciante do esquema e condenado a 7 anos e 14 dias de prisão, que nomeou a filha, deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), ministra do Trabalho.

Afastado da presidência do PR - antigo PL - desde que foi envolvido no mensalão, em 2005, o ex-deputado Valdemar Costa Neto jamais perdeu poder na legenda. Mesmo após condenação a 7 anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, continuou indicando ministros nos governos do PT. Mas foi com Temer que conseguiu ser formalmente reabilitado.

No ano passado, no auge da votação da denúncia contra o presidente na Câmara, foi chamado ao Jaburu para que ajudasse a cabalar votos para enterrar o pedido de afastamento da PGR.

- Temer estava com a cabeça na guilhotina, precisava dos 38 votos do PR. Ninguém tem melhor o mapa dos votos do PR na cabeça do que Valdemar. Ele foi bem tratado no governo Dilma e agora é bem tratado também no governo Temer - diz um dos companheiros de Valdemar no PR.

E o apoio não saiu de graça. A contrapartida, oficializada no dia da votação da segunda denúncia contra Temer na Câmara, foi um pleito antigo do PR, cujo ministro, Maurício Quintela, comanda a pasta de Trasportes: a reabertura do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, para voos de longa distância; e a retirada do aeroporto de Congonhas do cardápio de concessões.

A força do presidente do PTB, Roberto Jefferson, também é o resultado da reciprocidade. Como presidente do PTB, ele tomou a dianteira e levou o partido a ser o primeiro a fechar questão pela aprovação da reforma da Previdência. Também defendeu, publicamente, que nenhum partido da base acolhesse os infiéis da reforma. Na votação das denúncias contra Temer, Jefferson e a filha encabeçaram os encaminhamentos a favor da rejeição.

Além de Valdemar e Roberto Jefferson, condenado igualmente por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, adversários políticos de Temer dizem que o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, condenado no petrolão a 15 anos e quatro meses por corrupção passiva e pela solicitação e recebimento de vantagem indevida, continua influente no governo e é o responsável pela indicação do novo ministro da Secretaria de Governo, o deputado Carlos Marum.

O secretário de Comunicação da Presidência, Márcio de Freitas, argumenta que Jefferson e Valdemar já cumpriram suas penas e estão reabilitados para funções políticas, e que "não reconhecer que estão aptos a exercer normalmente suas funções seria um contrassenso à legislação vigente".