"SALVAÇÃO NACIONAL" - ARNALDO BLOCH

02/12/2017

02/12/2017
FONTE - O GLOBO

A expressão ganhou novo significado: todos estão trabalhando para salvar a própria pele. Então é salvação pessoal. 

Governo de salvação nacional: essa foi a carochinha usada para justificar a tramoia política que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, já que as pedaladas fiscais não poderiam ficar na História como motivo supremo, e sim pretexto jurídico. E, mais tarde, atenuar as evidências de que Temer, Cunha & grande escumalha congressual liderada pela quadrilha peemedebista trabalhavam, na calada da noite, para exterminar a Lava-Jato e manter viva a dilapidação do Brasil (sem reforma política, não há mutirão justiceiro que sobreviva). Com o desastre econômico, a desmoralização do PT e a colossal incompetência da ex-presidente, foi só ativar as pautas-bomba em série para agravar o quadro, abrir o caixa e decepar a rainha nua.

O PSDB, que jamais engoliu a derrota de seu Aecinho e hoje amarga um castigo dantesco, foi um dos grandes patrocinadores do conto da salvação nacional, iludido pela quimera de um atalho para a volta ao poder, uma "pinguela", na elegante, mas inútil, metáfora de FH. Agora está claro como o sol do verão em flor que, no que toca ao bem público e aos valores da República, não houve salvação nacional porcaria alguma. A ponte para o futuro estava dinamitada já nas fundações e a pinguela era feita de espuma.

Numa ironia diabólica, porém, a expressão "salvação" ganhou um novo significado, agudo, perfeitamente adequado para definir o que se passa: todos estão, sem exceção, trabalhando duro para salvar não o país, mas a própria pele. O governo de salvação nacional mostrou a cara: era um governo de salvação pessoal. A necessidade de Temer se livrar das denúncias comprometeu a pauta do Congresso, reabriu a feira pré-moderna de compra de votos a céu aberto, teve impacto gigante nas contas, aprofundou o rombo em dezenas de bilhões e gerou cortes em áreas prioritárias. Tudo no lombo do cidadão.

A pauta das reformas, sobretudo a da Previdência, principal bandeira da era Temer, grande simulacro de sua forjada legitimidade, clama, impopular, por salvação, em meio a avisos cada vez mais flagrantes de fracasso. Os parlamentares querem se salvar. Os servidores querem se salvar. Os militares querem se salvar. Os privilegiados querem se salvar. Os policiais querem se salvar. E, é claro, também os trabalhadores, em geral, fazem suas orações.

Atacada por todos os ângulos do campo político-partidário, e por uma parcela poderosa do Judiciário, a Lava-Jato, em parte baleada pelas suas próprias incoerências, seus excessos e a imaturidade de seus quadros, esforça-se para se salvar, mas vai sendo engolida pelo status quo e pelo rugido dos coronéis que ainda apitam os rumos do Brasil profundo, e conspiram para salvar-se. A aliança contra as investigações transcende agendas, ideologia, pertencimento: nela, de braços dados, estão Lula, Aécio, Temer, Renan, Jucá, direita, esquerda, centrinho, centrão... E uma cambada boa de jurisconsultos.

A menos de um ano das eleições de 2018, as próprias eleições tentam se salvar do pânico de não acontecer. Forças outrora dotadas de sentido cívico e hoje desfiguradas "buscam uma identidade": é o caso, o mais emblemático, do PSDB, que ensaia, numa procissão de madalenas arrependidas, salvar biografia, quadros, símbolos, salvar-se do túmulo, e abandonar um navio que já afundou. Difícil de levar capitão, que dirá tripulação, à superfície, embora o afogamento de Aécio tenha servido para "salvar" outros tucanos investigados dos holofotes e abafar os escândalos do poder paulista. Mas a campanha vem aí.

Questionado por sua inação, relacionada à própria natureza constitutiva, cheia de rabos presos corporativistas e benesses, o STF tanta salvar sua autoridade moral. E, diferentemente do peso do martelo, autoridade moral não é garantida pela Constituição, mas pelo juízo que a opinião pública e a sociedade como um todo fazem de seus posicionamentos e suas vergonhas inconfessas.

Em total desespero de causa, brasileiros que prezam a diversidade; abominam o racismo; temem a proliferação de armas; conhecem o valor das artes e da liberdade para a sobrevivência da democracia; amam a natureza; e resistem ao avanço fundamentalista, que desconhece separação entre fé e Estado; esses brasileiros procuram uma estratégia para se salvar da ascensão de um Reich tropical abençoado por um monstro multiforme. O monstro conta com a adesão de enormes contingentes da ultradireita disfarçada em conservadorismo (coitados dos conservadores de verdade, que, ao se calarem, consentem).

Nos grotões, o povo, como um todo, atônito, tenta se salvar do que quer que seja, tateando, no absoluto vazio de ideias, uma aparição mágica, na surrada figura de um... salvador. No horizonte despontam, além dos nomes da velha política, a besta do apocalipse oriunda dos quartéis, aliada, em oposição simbiótica, ao grande líder de um projeto de esquerda que, no frigir dos ovos, suicidou-se, enforcado numa corda entrelaçando ideais e virtudes com o encanto das piores práticas que assolam o país desde as capitanias. E que, igualmente, procura, nas urnas, a sua própria e derradeira chance de salvação, sob o pretexto alucinatório de uma possibilidade de redenção que ficou perdida no meio do caminho. O chavão se impõe: salve-se quem (e se) puder.