SÃO JORGE ÀS AVESSAS - JOSIAS DE SOUZA

06/02/2018


FONTE - BLOG DO JOSIAS NA INTERNET

Os novos depoimentos do marqueteiro João Santana e de sua mulher Monica Moura não trouxeram novidades retumbantes. A dupla apenas reiterou segredos de delação. Mas cada ponto da narrativa do casal do marketing contra Lula corresponde a uma reticência a menos na versão da defesa do personagem. Os serviços prestados por Santana ao PT mostraram que, com alguma marquetagem, as pessoas acreditam até em ovo sem casca. As revelações do marqueteiro à Lava Jato evidenciam que a verdade às vezes é mais incrível do que a ficção.

De todas as revelações de Santana e Mônica, a mais constrangedora é a narrativa sobre o dinheiro sujo borrifado por cleptoempreiteiras na caixa registradora da reeleição de Lula em 2006. O PT acabara de se lambuzar no mensalão, delatado por Roberto Jefferson no ano anterior. Lula dissera que "não sabia". Chegara mesmo a pedir "desculpas" depois que um depoimento de Duda Mendonça no Congresso acomodou a contabilidade de sua campanha de 2002 na zona de suspeição.

Dizendo-se "traído", Lula levara a cara dura à TV para declarar: ''Não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas. Porque o povo brasileiro [...] não pode, em momento algum, estar satisfeito com a situação que o nosso país está vivendo.''

Com outras palavras, Lula rogara aos 52.788.428 de eleitores que haviam votado nele que o vissem como um bobo, não como um cúmplice da corrupção. Era teatro. Mas houve quem acreditasse. Em 2006, já como candidato à reeleição, Lula sentiu-se à vontade para retomar a retórica da fábula. ''Esse negócio de mensalão me cheira a um pouco de folclore dentro do Congresso Nacional'', declarou. Nessa época, Santana e Mônica haviam assumido o departamento cenográfico do PT, no lugar de Duda.

É contra esse pano de fundo histórico que os novos depoimentos devem ser considerados. O Lula que pediu "desculpas" pelo mensalão era falso como uísque paraguaio. O Lula autêntico, o escocês legítimo, era esse personagem que se lambuzava nos porões de sua própria sucessão com as verbas enlameadas extraídas de um novo campo de pro$pecção, que viria a ser batizado de petrolão.

No segundo reinado, a ousadia da ''metamorfose ambulante'' aumentou na proporção direta do crescimento de sua popularidade. Em maio de 2010, quando carregava a candidatura presidencial de Dilma Rousseff nas costas, Lula referiu-se ao mensalão assim: ''Na verdade, era um momento em que tentaram dar um golpe neste país."

Hoje, ninguém espera ouvir uma confissão de Lula. Mesmo os piores bandidos têm o direito constitucional de mentir para não se autoincriminar. Não é à toa que as cadeias estão repletas de "inocentes". Mas o grão-mestre do PT sempre teve um relacionamento privilegiado com suas plateias. Não deveria exagerar no teatro do golpe. Sob pena de aplicar um nariz de palhaço mesmo nos devotos que sempre estiveram do seu lado, dispostos a ouvi-lo.

João Santana faz muita falta na barricada do PT. Sem ele, o pajé da tribo ficou indefeso. Amou intensamente a transgressão. E foi correspondido. Durante algum tempo, imaginou que, cercando-se dos piores canalhas da oligarquia política e empresarial, realçaria, por contraste, sua imagem de pureza sindical. Mas o déficit moral, agora misturado à ausência de marketing, acabou transformando Lula numa espécie de São Jorge que abandonou o plano de salvar a donzela para se casar com o dragão.