VARIZES MODERNISTAS - RUY CASTRO

16/02/2018

FONTE - FOLHA DE SP 

Em 1980, eu conhecia bem Paris, Londres, Milão, morara três anos em Lisboa, fora várias vezes a Nova York e nunca tinha ido a Brasília. Não havia motivo -não era jornalista político, nem funcionário público, nem amigo de senador. Até que, naquele ano, uma reportagem para a "Playboy", compreendendo várias capitais do país, levou-me pela primeira vez até lá. Brasília, inaugurada em 1960, tinha 20 anos, um broto. Aos meus olhos, pareceu uma coroa de varizes e minissaia.

Ao entrar e sair dos edifícios, eu me chocava com as alvenarias descascadas, os azulejos soltos, a grama crescendo entre os blocos dos pisos e um ar geral de obsolescência precoce. Mas, como sentia a mesma coisa nos prédios modernistas que frequentava no Rio e em São Paulo, o problema não devia ser de Brasília, e sim daquele tipo de arquitetura. Acontece que Brasília era toda assim. Comentei com Paulo Francis e ele mandou de volta: "Brasília é a maior ruína modernista do mundo".

Podia ter a ver com a pressa com que a cidade fora construída, pouco mais de três anos, e com o alegado carnaval envolvendo a quantidade e qualidade do concreto usado nas obras. Nas quais, dizia-se, valia tudo -o importante era inaugurar, embora, no Brasil daquele tempo, não houvesse nem casacas suficientes para todos os convidados de Juscelino.

Na semana passada, 30 metros do Eixo Rodoviário de Brasília, viaduto que cruza com o famoso Eixo Monumental, desabaram. Ninguém se feriu, mas ninguém se espantou. A construção é de 1960, uma das originais de Brasília, e um relatório autorizado de 2012 já falava da necessidade de "reparos urgentes". O relatório citou outros seis locais em perigo, incluindo duas pontes importantes.

Brasília fez 58 anos outro dia. O modernismo, como qualquer estilo, também envelhece, só que mal.

Ruy Castro

É escritor e jornalista. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda.


MEU COMENTÁRIO:

Guardo comigo a firme convicção de que os problemas brasileiros atuais, ou grande parte delas, deriva de a política brasileira ter se mudado para Brasilia. 

A construção da nova capital fez surgir do anonimato as hoje grandes empreiteiras, que se tornaram  desde então as donas do país e da política, como fonte de financiamento da cambada que até hoje diz nos representar. 

Brasilia é uma ilha da fantasia, um monte de concreto plantado no que então era o meio do nada, levando consigo uma multidão de servidores públicos. Estes, para deixarem o Rio, São Paulo, mesmo Bauru, teriam que ser atraidos por vantagens salariais e outras das mais diversas. 

Foi aí que nasceram os auxilios, moradia, alimentação, passagens aéreas, planos de saúde, etc, etc,. formando os penduricalhos que quase dobram o vencimento nominal. Incorporaram-se definitivamente, para formar os 53% da arrecadação tributária,  reduzindo dramaticamente as sobras para o resto, que de resto, é tudo. 

Sendo uma ilha da fantasia, habitada por gente que investiu na política como forma de enriquecer, tornando-se deputados e senadores, mais a casta dos servidores, que orbita em volta para auferir no possível mais e mais vantagens funcionais, só poderia dar no que deu e ser o que é. 

Em meu modo de ver, se a capital federal ainda estivesse no Rio,  nossos "representantes" dificilmente chegariam ao grau de desfaçatez a que chegaram, porque haveria reação popular. É o povo. 

Mas quem é o povo, em Brasilia? 

Os servidores cercados de vantagens, estabilidades, altos salários, mais interessados em manter tudo como está, e se possível, ainda melhor?

Que outro país do mundo investiu o que o Brasil de Juscelino gastou para fazer uma nova capital? Não conheço nenhum. 

Hoje, aos 58 anos, com viadutos desabando e azulejos despregando, como bem lembrou Ruy Castro, aparecem todos os defeitos de origem. 

E continuamos pagando alto preço por isso...