VIVA CHILE - VINICIUS MOTA

20/11/2017

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20/11/2017
FONTE - FOLHA DE SP

Pouco entusiasmados com a política, os eleitores chilenos -menos da metade deles, a rigor- deram início ao sétimo ciclo de votações presidenciais desde o fim da sangrenta ditadura Pinochet.

O desencanto deveria ser comemorado, pois é típico de nações desenvolvidas, em que o resultado eleitoral altera pouco o rumo da comunidade. O Chile já percorreu 4/5 da estrada que conduz ao seleto clube dos países ricos, enquanto o Brasil está parado no meio do caminho há 37 anos.

Em 1980, o trabalhador chileno e o brasileiro tinham praticamente a mesma produtividade. Cada um produzia cerca de US$ 30 mil por ano, em dinheiro de hoje. O brasileiro ficou estagnado. O chileno agora entrega quase US$ 55 mil por ano.

Escolhas mais contemporâneas -como o grau de abertura aos negócios, domésticos e externos-, misturadas a algumas decisões do passado mais distante, têm provável relação com a diferença nos destinos das duas nações sul-americanas.

Em 1890, o Chile registrava taxas de matrícula no ensino primário acima da média latino-americana, enquanto a brasileira rastejava em metade desta marca. O efeito de longo prazo, contudo, não deve ser exagerado. A Argentina, potência educacional e econômica no raiar do século 20, vive decadência de quase cem anos.

Moderação, o que na política se confunde com modorra e ceticismo, parece ser a resultante da marcha das nações que se aproximam do desenvolvimento. Os picos da euforia e os vales da depressão são menos pronunciados. Há mudanças grandes e definitivas, mas elas só se deixam enxergar na vertente das décadas.

Vencedores de hoje, na política e nos negócios, estarão derrotados amanhã, sem que ninguém ache forças para evitar seja a queda do aliado, seja a ascensão do adversário. O Chile aderiu a esse jogo e deve tornar-se a primeira nação latino-americana rica na próxima década.

MEU COMENTÁRIO:

Muito interessante o texto supra transcrito sobre o Chile e seu provável e breve ingresso no clube das nações ricas e estáveis.

Estive no Chile há alguns anos, ficando a maior parte do tempo em sua capital, Santiago. Bela cidade, com muito verde nas ruas, o que é admirável num país em que a água é escassa, onde as chuvas mais escassas ainda.

Comparar países exige inicialmente que o que se compara seja comparável. O Chile é país cuja população beira os l8 milhões de habitantes, se tanto. O Brasil supera 200 milhões. A partir daí as diferenças ficam exponenciais, prejudicando qualquer comparação.

Em extensão territorial nem será preciso citar números. Aliás, sempre entendi o Chile como uma extravagância geográfica, produto do deslocamento dos continentes há milhões de anos. Limita-se a leste com a cordilheira dos Andes, e a oeste com o oceano Pacífico. Sua largura, de leste a oeste, no ponto mais largo, deve beirar em torno de 200 kms.
Frente a tais dimensões, não surpreende que o IDH chileno seja elevado, 0,847, o que o coloca em 38º lugar no mundo.

Para nós, latino-americanos, é agradável saber que em nosso continente existe um país que em breve estará acima das comparações, em riqueza per capita, bem estar, nivel de vida, clima, e proximidade. Terra a ser visitada e melhor conhecida por todos que assim puderem.

Antes que me esqueça: o Chile, pelo que sei, não carrega em sua história a chaga da escravidão, que nos infelicitou durante quase quatro séculos, gerando uma elite escravocrata que ainda hoje sobrevive, ainda que disfarçada.

Existem muitos patrícios de prestígio achando que o grande problema do Brasil foi e ainda é a escravidão, pelo alto grau de corrupção nela envolvida.

Neste dia 20 de novembro, dedicado à consciência negra,
vale ler o texto integral da revista VEJA, que dedica ao assunto sua matéria especial do último número.

Em 13 de maio de 1888, quando a escravidão foi oficialmente abolida, restavem apenas 5% de negros escravizados. O resto estava "livre".
Livre, no pior sentido. Libertos porém sem recursos, sem profissão, analfabetos, sem ter onde ficar, sem qualquer apoio estatal, simplesmente postos de lado, onde ainda estão.

O Rio de Janeiro e suas favelas retrata bem para onde eles foram e onde ainda permanecem. As encostas dos morros, recolhendo restos de construção para construir seus barracos, moradias miseráveis relegadas ao desamparo oficial. Gerou um mundo à parte e contrastante. A zona sul, branca, de alto nível, e o entorno, formado pelas favelas.
Os libertos foram como algo que se varre para debaixo do tapete, escondidos, discriminados, enquanto fazemos de conta que vivemos em harmonia, pela miscinegação das raças. Uma nova!

Sem mão de obra para a lavoura, restou importar imigrantes europeus, brancos. E lá vieram os italianos, os alemães, os croatas, os eslavos e outras raças, também miseráveis, analfabetos ou semi, numa tentativa de "branquear" o país, já que pelas estatísticas, 54% é negra ou descendente.

Pois queiramos ou não o Brasil é isso: um país mestiço, com tudo o que isso possa ter de bom e de mau, aceitem ou não os pretensos puristas da miscinegação que só existe nos livros de história.